BIKINI KILL PARTE 3

Pegar num instrumento e tocar é algo transversal a rapazes e raparigas. Colocar uma mensagem política num pedaço de som é comum a ambos os sexos. Ter vontade de transmitir algo não é particular a nenhum deles. Então o que distingue Kathleen Hanna?  O facto de produzir arte através de diversos suportes como  música (Le Tigre), pintura, escrita (colaborou no argumento do boys don’t cry) e performance. Estar envolvida em numerosas actividades ligadas a defesa dos Direitos das Mulheres, Minorias e Direitos Humanos. Representar, na década de Noventa, o ponto de encontro entre o universo Punk e os Movimentos Feministas… O Riot Grrrl Punk. Este movimento criou fanzines, festivais, bandas e tinha como principal objectivo informar, e lutar, sobre os Direitos das Mulheres. Para mim, a sua principal conquista, foi demonstrar que o Punk pode ser interpretado por mulheres com o seu universo próprio, sensibilidade,  sem deixar de ser interventivo e importante.

BIKINI KILL PARTE 2

Comecei a ver, dentro da minha colecção de discos e Mp3, qual o grau de presença de mulheres e quais ouvia. Diversos nomes apareceram: Consolidated, Kim Gordon, Kim Deal, L7, Nico, Lunachicks, Babes in Toyland, Consolidated, Slits, Sachiko e Yoshiko Fujiyama, Siouxie, Nina Hagen, Raincoats, Polly Jean Harvey ou Peaches… Isto não ajuda…Comecei a pensar em mulheres portuguesas, Joana Longboardi com as Voodoo Dolls e Mão Morta, Xana, com um primeiro álbum a solo brilhante, ou Suspira Franklin com as Everground e Les Baton Rouge. Enquanto esta análise decorria, curiosamente, uma música de fundo ouvia-se no meu cérebro… A bateria sincopada, guitarra rasgada e uma voz estridente a gritar “Rebel Girl”… Claro… Mas como é que não lembrei…Kathleen Hanna, Bikini Kill e o Riot Grrrl Punk. Um dos principais argumentos do Punk era o do it yourself. Não era preciso muito dinheiro ou talento. Qualquer pessoa podia pegar em instrumentos e tocar. Milhares de jovens abraçaram este universo. Kathleen Hanna foi um deles. Convidada para fazer a banda sonora de um projecto cinematográfico mentiu e disse que sabia tocar guitarra. Dado que lhe tinha sido entregue o trabalho, e precisava do dinheiro, fechou-se num quarto a tentar afinar uma viola acústica durante uma hora. Após o ter conseguido desatou a chorar convulsivamente.

BIKINI KILL PARTE 1

Os próximos posts tiveram como base um trabalho apresentado no âmbito do  curso em Igualdade do Gênero que frequentei no Instituto de Gestão e Administração Pública no Porto. Espero que seja do vosso agrado. Reduzir a vida de alguém a uma página A4 é difícil. Torna-se mais complicado se não soubermos sobre quem escrever. Queria que fosse sobre uma mulher ligada à música Rock mas que não fosse viúva… Já ajudou… Afastou a Yoko Ono e a Courtney Love !  È um facto que o Rock é dominado pelo Macho (Desconheço a razão pela qual o Zeze Camarinha ainda não compôs uma balada!). Especialmente quando falamos de Punk, Metal ou Hard Rock, mulheres com guitarras sempre foram pouco vistas. Havia a Wanda Jackson, Joni Mitchell, Karen Carpenter, bandas como Heart, Fleetwood Mac ou Jefferson Airplane. Mas, ficava a ideia de que eram uma novidade ou algo a não ser levado muito a serio. Mesmo quando tocavam Hard Rock (Girlschool ou Suzi Quatro) estavam dentro do universo criativo masculino. O seu papel deveria ser de groupies, fans, modelos ou compositoras. Neste sentido, traduzo um extracto, hilariante, de Seb Hunter, em “HellBent for Leahter - Confessions of a Heavy Metal Addict”: “Porque é que isto acontece? Na realidade é música de homens. È de tal forma masculino que não há espaço para mulheres. É genético. É caso de: “Onde é que vos posso colocar? Hum… Desculpem meus amores mas não há espaço aqui... Agora, sejam Queridas e vão buscar uns hambúrguer, rapidinho…”. 

JOÃO PESTE & ACIDOXIBORDEL

"Tinha as mãos dormentes e os meus olhos iluminavam-se de violeta. Podia até sentir o espirito de Rimbaud adormecendo lentamente no meu colo...". João Peste & Acidoxibordel, Clio Software, 1990, Ama Romanta


Em finais da década de oitenta, após a edição do mini-lp “Illogik Plastik”, os Pop Dell’ Arte decidem fazer uma pequena pausa que duraria até 1991. Durante esse interregno, João Peste, Zé Pedro Moura, Sapo, Rafael Toral, Jorge Ferraz, Nuno Tempero, Rodrigo Amado e David Souza, criam o colectivo João Peste & Acidoxibordel. No extinto espaço lisboeta, “Rock Rendez-Vous”, deram um primeiro concerto, em 10 de Julho de 1989, e, mais tarde, no concerto de Natal, desse mesmo ano, que contou com a presença dos Mler Ife Dada, Sitiados, Essa Entente e Mão Morta. A duração seria efémera, tendo sido dissolvido, em Fevereiro de 1990, supostamente em virtude de divergências internas entre os dois principais mentores do projecto, João Peste e Jorge Ferraz. Todavia, em Julho desse mesmo ano foi editado (Ama Romanta - MR0019) o EP homónimo que, em 2000, teve direito a uma reedição, em formato CD-Single, pela Candy Factory. Em ambos os suportes, o alinhamento é o mesmo: Groovy Noise-Dada Rock, Clio Software, Cocaine, Amigo, Distante Domingo (TL-2 Napoleon). Todo este E.P. parece ser uma viagem a uma dimensão alternativa de som, imagem e cor, ligada a um novo mundo digital, permitida por um universo lisergico povoado, de acordo com os seus autores, pelos Sonic Youth, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Butthole Surfers, Kurt Schwitters, Almada Negreiros, Wyndham Lewis, Jean Cocteau e Pablo Neruda. Espero que gostem.

GHOSTS OF PORT ROYAL

De certeza que vai ser mais um grande concerto dos Ghosts of Port Royal ... Infelizmente não poderei ir ver... Pena... Ando com saudades do combustivel sonoro que lhes corre pelas veias... Não há igual no panorama nacional. Curioso... Durante os seculos XVI e XVII os Piratas capturavam músicos e obrigavam-nos a actuar. A tocar música de festa para acompanhar longos serões alimentados por alcool e durante os combates para lhes dar animo e destabilizar as tripulações dos Barcos atacados. È esta energia, e herança, que os Ghosts transmitem... Agrilhoados pelos tempos, soltam a sua raiva em Palco... No Sábado, 15 de Maio, no Miami Club em Olival, Vila Nova de Gaia.

JOÃO PESTE & ACIDOXI BORDEL

Acabei de fazer algo que nunca pensei possivel... 
Vendi o Maxi do João Peste & Acidoxibordel... Sim... O vinil da Ama Romanta, de 1990, com aquelas letras lindas em branco sob fundo azul... É a vida... Não tem a ver com o preço mas com uma atitude que cultivo de não apego a coisas materiais. É apenas um disco... Uma peça de vinil com um cartão à volta. Não devia custar, mas custa. Que se lixe... Mudei uma serie de coisas na minha vida e esta é uma delas. Não me arrependo. Já despachei quase toda a minha colecção... Deixo aqui a "Groovy Noise-Dada Rock". Um excelente disco, uma peça da história da Musica Portuguesa que agora vai ser devidamente apreciada e cuidada por outra pessoa. 

In Trompa: Eu entro em delírio com as imagens escondidas na tua mente“. Nele pululam Zé Pedro Moura, Sapo, Rafael Toral, Jorge Ferraz, Nuno Tempero, Rodrigo Amado, David Souza e…João Peste. Alucinado, ácido, meio demente, surreal, demente e meio, muito ácido, alucinado…sim, é um disco em alucinação permanente, como que vagueando etéreo pelos campos da súbita loucura. Também não será grande a novidade.  Foi bom enquanto durou mas durou pouco, apenas o escasso tempo de um prazer curto mas intenso. É assim Acidoxibordel. Foi assim. Um prazer intenso…perturbante. Sim, porque não, a obra de João Peste e dos que o acompanham, tem sempre o seu quê de perturbante, desenquadrada dos limites da normalidade, da sobriedade, desenquadrada dos limites de um certo produzir banal. Aqui, há um qualquer desespero perturbador. Há. Foi bom recordar uma vez mais, o imenso performer que é João Peste."