ALEXANDRE HERCULANO - A Dama do Pé de Cabra

"A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche, esperta e ligeira que mais não havia dizer, e dela não menos prezada.... A podenga negra, essa corria pelo aposento viva e inquieta, pulando como um diabrete: o pêlo liso e macio reluzia-lhe com um reflexo avermelhado...O senhor de Biscaia pegou então de um pedaço de osso com sua carne e medula e, atirando-o ao alão, gritou-lhe: - "Silvano, toma lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe senão correr e retouçar."...O canzarrão abriu os olhos, rosnou, pôs a pata sobre o osso e, abrindo a boca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir deslavado.Mas logo soltou um uivo e caiu, perneando meio morto: a podenga, de um pulo, lhe saltara à garganta, e o alão agonizava."Pelas barbas de D. From, meu bisavô! - exclamou D. Diogo, pondo-se em pé, trêmulo de cólera e de vinho. -A perra maldita matou-me o melhor alão da matilha; mas juro que hei-de escorchá-la."

“A Dama Pé de Cabra – Rimance de um jogral – Seculo XI” em “Lendas e Narrativas” por Alexandre Herculano, Tomo II, Edição de David Lopes, Livraria Bertrand.

1 comentário:

Rafael Amorim disse...

Podenga - Cadela;
Azeviche - Pedra Negra;
Nobre mulher de D. Diogo - Dama Pé de Cabra;