CONJUNTO OLIVEIRA MUGE - A VERDADEIRA HISTÓRIA DA “MÃE” – PARTE III

A oportunidade, e a forma, como esta edição foi efectuada em Portugal, sem que o Conjunto dela tenha tido conhecimento, poderá ter tido diversas razões.
A música foi um imediato sucesso em Moçambique e nas províncias ultramarinas de expressão portuguesa, nunca houve nenhum tipo de registo dos músicos na Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses (anterior Sociedade Portuguesa de Autores) e a distribuição e fabrico de discos pela EMI, em Portugal, era feito sempre através da VC.
A recente descoberta nos arquivos da VC de uma bobine com as gravações do 3.º EP, de 1968, do Conjunto, pode indiciar o interesse daquela editora em distribuir, directamente, toda a discografia do Conjunto.
Sendo que as repercussões, negativas, da popularidade da Mãe podem ter levado à opção pela edição através de subsidiárias como a Roda e a N’Gola.
A música não terá sido alvo da Comissão de Censura tendo em conta a sua letra e a forma como ela podia ser ouvida nas províncias ultramarinas.
Policarpo, em entrevista à revista Plateia, em 1967, referia que “…um dos dois discos que o Conjunto já editou esta esgotado mercê da composição “Mãe” …” e que tal se deve ao facto de “As estações emissoras da Província, transmitem, com muita frequência melodias que fazem parte dos acetatos que o Conjunto tem a venda. Todavia, “Mãe” é indiscutivelmente a composição mais irradiada…” e, em Junho de 1993, numa entrevista ao jornal Primeiro de Janeiro, o jornalista que conduzia a entrevista faz a seguinte afirmação “…sabemos que um dos grandes êxitos do compositor Policarpo Costa foi o poema “Mãe”, que na altura lhes valeu alguns dissabores com a Pide…”. A resposta de Policarpo foi no sentido de lembrar o verdadeiro objectivo daquela melodia: “… nunca deixou de ser, para quem vivia longe da família uma canção tocante e que ainda hoje provoca a sua lagrimazita ao canto dos olhos…”.
Mas, a forma como ela ficou associada a um crescente descontentamento com a Guerra Colonial poderá ter sido a causa de alguns dissabores para o Conjunto especialmente a partir daquela edição. 
Há fortes indícios que esta música, em Portugal, tenha sido banida das rádios e da televisão e, ao nível da imprensa escrita, ignorada.
Veja-se a este propósito Paulo de Medeiros, na rubrica Discocritica, da Revista Nova Antena, em 07 de Março de 1969, e cujo conteúdo é integralmente aqui transcrito: “Conj. Oliveira Muge – «Nessuno mi Puó Giudicare» (**) Toca de forma aceitável. O vocalista. Contudo, afigura-se de bitola mediana… No cômputo, microgravação muito regular. Do recheio, salientamos a “Mirza”, “In un Fiore” e “Nessuno mi Puó Giudicare”…todas de cabelinhos levemente brancos. Mas, apesar disso, superiores a modernismos gritantes.”.
Neste texto nunca foi referido o nome da canção, nunca foi referido a designação da edição cujo nome é A Mãe, indicam como título para o disco a Nessuno mi Puó Giudicare, não referem que estas músicas foram, originalmente, gravadas, lançadas e distribuídas em 1966 e nem podemos afirmar que os gostos do crítico pudessem ser por músicas mais actuais pois ele próprio afirma com algum escárnio “… superiores a modernismos gritantes.”.
Este texto não iria passar em branco à escrita especializada. O Onda Pop foi o primeiro suplemento dedicado exclusivamente à música portuguesa, incluído no Jornal Notícias de Lourenço Marques entre Outubro de 1968 e Maio de 1971.
Em 1969, o suplemento escreve o seguinte: “…não se fala nesta canção que nos achamos a melhor do disco… desgosta-nos que se não tivesse falado na canção “A Mãe” da autoria do grupo e que não era conhecida na metrópole. Para nos ela foi uma das melhores canções portuguesas de 1966. A razão do esquecimento, desconhecemos.”.


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