A “Mãe”
poderá, também, ter sido uma das causas para quando Conjunto volta,
temporariamente, a Portugal, em 1969, encontrarem algumas resistências quer
para a gravação de um disco de longa duração, quer com a marcação de uma
aparição na televisão.
Se
tivermos em consideração que a guerra colonial começou, em Moçambique, em 1964,
e que a música já nessa altura fazia parte do reportório habitual do Conjunto
nas suas actuações (rádio e concertos), terá sido uma das razões para, em 1965,
perante mais de 7.000 pessoas, perderem a eliminatória, de Moçambique, do Concurso de Yé Yé organizado em Lourenço
Marques pelo jornal O Século com a
colaboração do Movimento Nacional
Feminino, Radiotelevisão Portuguesa, Emissora Nacional e Rádio Clube Português.
Até
porque o Conjunto nunca conseguiu actuar para as forças armadas portuguesas
colocadas em Moçambique.
Vejamos
este Desabafo de um Grande Conjunto
Oliveira Muge publicado em 1969 na imprensa Moçambicana: “Tempos atrás, talvez na altura em que o
terrorismo começou a alastrar, infelizmente, por Moçambique…pensamos realizar
uma serie de actuações para a malta militar porque fazendo arte de uma
sociedade reconhecida pelos feitos dos nossos bravos rapazes, sentimos ser esse
o nosso dever, ir até lá acima levar-lhes um pouco de apoio moral, distraindo
com a nossa música. E os rapazes do popular Conjunto, depois de contactarem com
as entidades competentes no Quartel-general (reparem que acolheram a nossa
ideia com o maior entusiasmo e garantiram-nos que tudo se arranjaria) começaram
então a envidar os melhores esforços para que a sua embaixada de amizade
tivesse o cunho de inédito – Mandamos fazer umas boas centenas de panfletos,
com uma mensagem amiga das gentes do Planalto, para serem lançados de avião nas
zonas onde fossemos actuar. Ainda dentro do mesmo espírito de amizade e
reconhecimento, contactamos com diversas firmas comerciais de Vila Pery, e a
população em geral, de quem obtivemos a certeza de um valioso apoio, em
citrinos, cigarros, livros, revistas e outros artigos, que depois ofereceríamos
aos nossos Soldados. Mas a verdade é que quando tudo se concretizava já o
Conjunto era oficialmente informado da impossibilidade da viagem de avião,
ficando, incrivelmente, a digressão sem efeito. Não desanimaremos.
Teimosamente, o nosso desejo contínua de pé: o Conjunto Oliveira Muge quer
actuar para as Forças Armadas que prestam serviço na Província!”.
Mas
nem por isso esta música deixava de ser ouvida pelas forças armadas colocadas
nas províncias ultramarinas.
Victor
Gomes, o Rei do Rock Português, recorda-se de um episódio muito especial
ocorrido em Nampula, em finais de 1968.
Nampula
era o receptor das forças que lutavam pela independência moçambicana e que
vinham de Tanganica (que juntamente com Zanzibar hoje em dia formam a Tanzânia)
pelo que era uma área com um forte contingente de tropas portugueses.
Era o
local onde estava colocado Joaquim Oliveira (dos Gatos Negros no inicio da
década de sessenta) e onde vivia sua Mãe e Tia.
A pedido
da Cruz Vermelha e do Movimento Nacional Feminino, Victor Gomes, com o auxílio
da banda de um batalhão onde estava colocado Joaquim Oliveira, vão tocar no
Clube Ferroviário de Nampula para uma plateia de 6.000 pessoas onde mais de 80%
eram militares ali estacionados.
Victor
recorda-se desse dia desta forma: “…no
meio do show, e como tinha combinado com a banda, dirigi-me ao microfone e
disse que ia cantar uma música dedicada aquela rapaziada que estava a tanto
tempo ausente das suas mulheres, namoradas e familiares. Sentei-me a boca do
palco e quando começam os primeiros acordes da música, retiro do bolso do meu
casaco, papel de carta e uma caneta, e olho em meu redor para ver as lágrimas a
escorrerem do rosto daqueles rapazes. Começo a cantar “Mamãe…” e o silêncio de
6.000 pessoas é impressionante! Quando, no final da música, poucos segundos
antes de acabar com a frase “Eu volto” já tudo estava a aplaudir e a gritar de
pé….”.

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