Ali Hassan Kuban: Viagens, Monólogos e a Magia do Cairo


Enganei-me no horário do comboio, ontem de manhã, e quase que chegava atrasado a um almoço na Casa da Música. Lá apanhei o comboio e parti em direção ao Porto. Mochila nas costas, MP4 a debitar Ali Hassan Kuban e ia lendo um livrito. 

Sentei-me ao lado de duas personagens. Nem tinha reparado bem. Um de bandana, casaco Adidas, brinco na orelha, barba recortada e muletas. O outro, magro como um palito, envergava uma t-shirt preta com a cor muito desbotada, na qual estava escrito "Pirata", e exibia uma tatuagem no interior do braço esquerdo que dizia "Sandra".

Falavam sobre um assunto qualquer a que não prestei muita atenção, tanto mais que naquele momento estava a ouvir a "Habibi". Há coisas mais importantes na vida do que escutar a conversa dos outros. 

Todavia (sem saber como!), o volume do meu MP4 baixou misteriosamente e consegui ouvir a conversa dos rapazes. Conversa, como quem diz: era mais um monólogo por parte do indivíduo da t-shirt preta (doravante "Pirata"), que não se calava nem conseguia estar quieto. Ou gesticulava com as mãos e com os braços, ou brincava com uma pequena navalha que utilizava para raspar um bocado de pastilha elástica agarrada à carteira.

Para vossa comodidade, vou "traduzir" parte do monólogo: "Pirata - Eu vou por cima, passo a casa da [xxxxx], encontro o outro sujeito a sair por trás da viela e não paro. Bum!! Parto para cima dele e chino-o todo!!!" O outro acenava com a cabeça em sinal de concordância e fazia de conta que estava atento.

Estava a passar por Espinho e achei que seria melhor seguir a minha vida. O volume do MP4 já tinha aumentado e agora tocava a "Bettigor Agil". Pela janela via a praia de S. Félix da Marinha, o mar encrespado e ainda sem condições para surf. Ando cheio de vontade de ir para dentro de água. Com a história do escafoide, a campanha eleitoral, a mudança de casa, etc., não houve muito espaço para surf este ano. "Pode ser que melhore", pensava.

Imerso na música, lembrava-me da primeira vez que ouvi Ali Hassan Kuban. Estávamos em 93 ou 94, já não recordo, e numa edição do "Blitz" a Sofia Aparício confessava-se uma ouvinte da XFM e dizia que a sua música favorita era a "Habibi", de Ali Hassan Kuban. Apaixonei-me, naquele instante, pela Sofia Aparício. Qualquer mulher que, naquela altura, dissesse que gostava da XFM (não se esqueçam de que eu ainda não tinha vinte anos), era uma DEUSA!

Esperei pacientemente pelo programa do Aníbal Cabrita — o único que eu conhecia, na altura, que debitava "World Music". E com grande sacrifício, pois já passava das 23h (hora da caminha), consegui ouvir (e gravar numa K7 que ainda hoje tenho e que inclui um especial do Jah Wobble) a "Habibi". Fiquei maluco com o som ritmado do rei núbio. 

Dançava sozinho na sala do meu apartamento na rua José Mariani, em Gaia, e repeti inúmeras vezes essa música, sonhando em conhecer a Sofia Aparício e em como iria meter conversa com ela a falar sobre Ali Hassan Kuban. Não vos vou deixar o vídeo da "Habibi", mas sim da "Mabruk", que faz, neste momento, as minhas delícias. Espero que gostem.


Comentários

Anónimo disse…
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