David Meltzer: O Mármore Branco de Lugosi

Falar de Bela Lugosi é mergulhar num abismo de sombras onde o cinema e a mitologia pessoal se fundem de forma irremediável. Se a sua silhueta recortada na tela definiu o imaginário do horror gótico, é na literatura e na poesia que encontramos, por vezes, a descodificação mais sensível do seu magnetismo. 

Recuperamos hoje a visão de David Meltzer, na sua emblemática "15.ª Raga / Para Bela Lugosi", escrita em 1968. Esta peça, que nos chega através da tradução de Manuel de Seabra para a "Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana", publicada pela Editorial Futura em 1973, oferece-nos uma perspetiva quase táctil sobre o ator que se deixou consumir pela própria personagem.

"Quando diz Transilvânia ou acónito

ou

Eu sou o Conde Drácula

os seus olhos ficam abertos

&, por um instante, puro

mármore branco.

Não admira que

fosse tanto tempo drogado.

Está no sorriso. A maneira 

como entrava em quartos victorianos

segurando a capa como uma saia,

depois cobrindo o rosto dela

ao inclinar-se para beijá-la

no pescoço & sorver.

Não admira & era

também de bom gosto"

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