Electric Moon e a Viagem Sideral de "Lunatics" (O Álbum de 2010)



De longe vem a minha adoração pela música germânica que bebe de Wagner, passa pelo Punk e encontra, no meu ponto de vista, a sua expressão máxima de originalidade no Krautrock e no Psicadelismo que lhe tem sido associado nas últimas décadas.

Nunca gostei das listas dos "melhores do ano". Do álbum do ano, da canção do ano, do vocalista do ano... Normalmente, este género de exercício por parte de melómanos leva-me a sítios pouco confortáveis. Vislumbro cerimónias de entrega de prémios sem sentido, laudos abonatórios a bandas que desaparecem no pó dos segundos, e playlists de consumo rápido. 

Como escreveu em tempos Michael Franti (na altura nos Disposable Heroes of Hiphoprisy), embora num contexto diferente:

"Uneducated, underdeveloped Undisciplined but mostly unaware; We join the flavor of the month club;…Then bashing Jews, was the flavor of the month; Gentrification, was the flavor of the month; Isolation, was the flavor of the month…"

Tenho o cuidado de não escrever na emoção do momento. Gosto de manter alguma frieza e distanciamento entre o primeiro byte do mp3, o primeiro risco do vinil ou aquele acorde que nos leva para onde vertigens de cor se cruzam com entidades etéreas. Deixo o álbum marinar, ouço a opinião de amigos, dos meus irmãos, de estranhos, e volto a ouvir o disco várias vezes para saber se a música continua a arrepiar o meu cérebro.

Foi exatamente esse o caso com este Lunatics

Este ano esteve recheado de grandes momentos: os discos dos Moon Duo e dos Sardonis, a vinda dos Electric Wizard, os Unzen Pilot, os Causa Sui, o E.P. de estreia dos Ghost of Port Royal, o regresso dos Man or Astroman (e até a desilusão do cancelamento dos White Hills). 

Mas quando ouvi os primeiros acordes de "Brain Eaters", rendi-me à evidência: este foi, sem sombra de dúvidas, o álbum que mais gostei de ouvir e a banda que mais gostei de descobrir em 2010.

As Origens: De Fulda para o Cosmos

A base deste mundo cósmico fica em Fulda, Hessen, na Alemanha. O motor do projeto é Dave Schmidt, a.k.a. Sula Bassana (guitarras, efeitos e órgão), um nome que já conhecia de projetos como Zone Six ou Liquid Visions. Lembro-me de estar em Berlim, em 2007, perdido numa conversa cripto-alemã/inglesa sobre os Can e os Neu!, quando me perguntaram se conhecia este berlinense. Na altura fui ouvir Zone Six ao YouTube e fiquei por ali.
Passados estes anos, o nome volta a surgir no éter. Os Electric Moon formaram-se em 2009 e, além de Sula Bassana, contam com Komet Lulu (baixo, efeitos, vocais e responsável por todo o grafismo) e, até ao final deste ano, Pablo Carneval na bateria. (Nota: A partir de Janeiro de 2011, a banda procura um novo baterista na zona de Fulda que entenda de Jam Sessions e, acima de tudo, que goste genuinamente de tocar com eles).


"Lunatics": A Banda Sonora do Espaço

Editado pela Nasoni em Setembro deste ano, Lunatics é um prato forte de longas improvisações psicadélicas. Com inspirações que passam por Earthless, Blue Cheer, Acid Mothers Temple, Neu!, Kraftwerk, Faust e Moon Duo, o som deste trio é possante o suficiente para encher uma sala, um cérebro ou uma outra dimensão de tempo e espaço.

A guitarra de Sula Bassana é a atração principal, guiando viagens longas, hipnóticas e cheias de groove. Todavia, é a secção rítmica que sustém todo este passeio sideral, marcando o tempo como uma locomotiva pesada. Como contêm vários overdubs, arranjos e efeitos eletrónicos, não estamos perante um álbum puramente improvisado, o que nos deixa com uma enorme sensação de expansão e conforto.

O alinhamento da viagem:

  • Gefährliche Planetengirls: Começa a soar a Krautrock, Stereolab, Wooden Shjips e aos anos 70. Tudo misturado de forma meditativa, Stoner, caleidoscópica e simples.
  • Lunatic: Segue o mesmo caminho inicial, até que, por volta do minuto 8, alguém decide injetar "nitro" e a música ganha asas para planar sem rumo.
  • Brain Eaters (19 mins): O grande culpado do meu vício. Tem sido a minha companhia inseparável nas infindáveis viagens de transportes públicos. Começa com um som negro e cavernoso e evolui para uma passeata a uma velocidade crescente e ondulante. Nunca cansa.
  • Hotel Hell: Uma versão com uma atmosfera verdadeiramente surpreendente do original de Eric Burdon & The Animals.
  • Moon Love: O canto da sereia. A voz melancólica de Lulu atrai-nos para as profundezas de algo muito energético a partir do minuto 13.
  • (Extra) D Tune: Uma obra de 17 minutos exclusiva da edição em vinil, que vale cada segundo.
Prenda de Natal 2010: Entrevista aos Electric Moon

Tive a oportunidade de fazer uma pequena entrevista com a Komet Lulu e o Sula Bassana. Fica aqui como a minha prenda de Natal para os leitores do blog:
Porquê "Electric Moon"? Komet Lulu: I urged Dave to make music with me. So we invited Bernie (Pablo Carneval) to jam a little around with us. He came, we jammed and the effect was so stunning for us (most of the Lunatics album are pieces from our first jams) that we jump-started this project. The name… We created a myspace account and wondered about a band name. Dave said: "What about your email address, electric.moon@...?! It would be a cool band name!". I agreed and that's it! The whole thing is fate because it was magic from the first beat we played together. Sula Bassana: Yes, that's all! It's only magic!
Sentem que fazem parte de uma cena emergente na Europa? As bandas alemãs têm uma responsabilidade especial nesse crescimento? Komet Lulu: I don't know! Maybe some kind of "special place" with that Krautrock-thing. The most important is to create something new. To make music that is natural. There are so unbelievable many new bands and many of them are just copies trying to sound like Colour Haze, for example. Sula Bassana: We like to play live, but it becomes harder to get paid gigs year by year! What is growing? There are much more bands around, but that depends on cheaper instruments and recording equipment. The only thing that really grows is the size of the Roadburn Festival!
Existe um circuito estabelecido para este tipo de música na Alemanha? Komet Lulu: We want to play as many gigs as possible! Seemingly, we found a new drummer and maybe we will start a little German-tour with Vibravoid next year. If there's a chance, we would like to play everywhere. Sula Bassana: Yep! And with Seven That Spells and Tracker.
Tiveram a oportunidade de tocar no Duna Jam 2010. Como aconteceu? Komet Lulu: Well, we told the operator we wanted to play there, so he agreed. It's a great thing to play and to be there - it's really magic!!! Have to check it out!!!
Ficaram surpreendidos com a excelente receção deste álbum (boas críticas na Alemanha, Holanda, Finlândia)? Komet Lulu: We were just happy! We have "customers" in the UK and USA and we're played in radio shows in these countries. Sula Bassana: The album became 'album of the week' in the English Starship Overflow radio show and got some airplay! And we had a CD-Sampler appearance in the English Classic Rock Magazine! This is not too bad!
Encontrei um sabor muito americano e inglês no disco. São referências para vocês? Komet Lulu: No, not really... Our reference is the connection between us three. Sula Bassana: Everything is an influence! Especially when you listen to good music many times. But for our music, only the moment counts! The mood is the deepest inspiration.
Porquê a cover de "Hotel Hell" dos Animals? Estão a trabalhar em mais versões? Komet Lulu: I love this song and wanted absolutely to cover it! Maybe we'll cover another 60s song one day. Sula Bassana: I want to cover Symphony no.7 (part 3) by Beethoven!
Vamos ouvir mais vocais no futuro? Komet Lulu: As the case may be... I wrote tons of lyrics and in the future, I’ll try to join them to our music. Sula Bassana: That would be coooooool!

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