Se há música que me faz recuar no tempo e sentir o ambiente de final de noite no Indústria, na Foz, é esta. Quem por lá passou recorda-se: regra geral, era com esta voz que se selava a pista e se despedia a madrugada.
Falo de Martine Girault e do seu hino "Revival". Muitos associam-no de imediato àquela icónica publicidade da Nescafé, mas para quem vivia mergulhado no som da época, o impacto ia muito mais fundo. Estávamos nos anos dourados do New Soul, do Trip Hop e do Acid Jazz, e a minha cabeça fervilhava com referências graças às míticas coletâneas "Rebirth of Cool". "Revival" era, sem dúvida, uma das minhas favoritas num desses volumes.
Ao longo dos últimos anos, deixei-me conquistar por uma obsessão silenciosa pela cena Street Soul do Reino Unido (final dos anos 80/início de 90). Era uma era D.I.Y., onde uma nova geração de produtores e vocalistas amadores usava inovações caseiras.
O resultado era uma mistura única: breakbeats samplados, linhas de baixo vindas do Reggae e do Dub, sintetizadores polidos e vozes que pareciam vir da "miúda ou do miúdo da porta ao lado". De muitas formas, o Street Soul — comercialmente personificado pelos Soul II Soul — pavimentou o caminho para o Trip-hop e o Downbeat. Basta ouvir os primeiros registos de Massive Attack ou Tricky para percebermos que a semente estava toda lá.
A voz fumarenta de Martine Girault continua a ser o gatilho perfeito. Ouvir "Revival" hoje é voltar a esse vórtice de elegância e batida, onde o soul encontrou a rua e nós encontrámos a banda sonora ideal para as noites da Foz.

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