Woody Allen: O Labirinto das Memórias



Há uma mecânica fascinante na forma como o nosso cérebro traça túneis entre memórias que julgávamos perdidas, conduzindo-nos a livros e canções que, sem aviso, definem os contornos da nossa identidade. 

No meu caso, o ponto de rutura com a sobriedade literária aconteceu através de uma obra carregada do nonsense mais puro e característico de Woody Allen: "Para Acabar de Vez Com a Cultura". Este título mantém, ainda hoje, uma aura de estupefação na minha memória, não propriamente pelo seu conteúdo iconoclasta, mas pela estranheza da sua origem na biblioteca da minha família.

Corria o ano de 1983 quando o meu pai adquiriu este exemplar. Nunca obtive uma explicação satisfatória para o facto de, entre prateleiras densamente povoadas por sociólogos e filósofos franceses, ou por ensaios ideologicamente comprometidos com a esquerda pré e pós-revolucionária de Abril, pontuar este fragmento de humor neurótico vindo de um autor norte-americano e judeu. Foi uma nota dissonante numa sinfonia de rigor académico, mas foi também a minha maior sorte.

A semente plantada por aquele volume solitário germinou anos mais tarde. Na década de noventa, enquanto percorria os recantos da Invicta, o destino levou-me a um alfarrabista na Rua das Flores. Ali, entre o cheiro a papel antigo e o pó das estantes esquecidas, consegui resgatar mais dois títulos de Allen, solidificando uma admiração por aquela escrita que, sob a capa do absurdo, disseca as angústias da condição humana com uma precisão cirúrgica.

Ler Woody Allen é aceitar um convite para um jantar onde o anfitrião se esqueceu das chaves, mas preparou um banquete de ideias brilhantes sobre a morte, Deus e a insustentável leveza das relações sociais. A sua prosa, tal como a sua cinematografia, é um exercício de inteligência que não teme o ridículo, encontrando na neurose a matéria-prima para a lucidez. Aqueles livros, adquiridos num tempo de descobertas e de tertúlias prolongadas, permanecem como marcos de uma formação intelectual que aprendeu a valorizar o riso como a forma mais elevada de pensamento crítico.

A influência de Allen na minha perceção cultural é indissociável de uma certa estética jazzística e urbana. 

A sua capacidade de satirizar a intelectualidade, ao mesmo tempo que a celebra, criou em mim um filtro de ceticismo saudável perante a cultura "oficial". É na simplicidade do gag e na complexidade do monólogo interior que descobrimos a riqueza desta obra. Para quem deseja revisitar o espírito dessa época e a sonoridade que frequentemente acompanha estas leituras, o universo musical de Allen oferece um refúgio de sofisticação e melancolia.

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