Arquivo Estereopositivo: Rádios Piratas, Concertos Caóticos e a Realeza de Siouxsie and the Banshees
A Pirate Cat Radio é uma pequena rádio pirata (como
o próprio nome indica) que emite a partir de um pequeno café em São Francisco.
Tem uma programação de autor quase total, fugindo ao modo automático como,
infelizmente, muitas rádios funcionam hoje em dia, e apresenta alguns programas
brilhantes de divulgação musical.
Ouvia com particular atenção o programa Post Punk for Post Punkers, não apenas
pela música em si, mas pelo excelente enquadramento que ele dava a cada tema.
Numa das sessões, o objetivo era passar exclusivamente músicas que, para ele,
tinham bons começos. Antes de cada faixa, ele explicava a razão de considerar
aquela introdução perfeita, o estado de espírito que lhe transmitia e tecia
considerações sobre a banda. Como ele próprio resumiu: "All songs that start off in some way
that I like, are always nice".
Ora, falar de inícios marcantes, de movimento
gótico, de new wave ou de post-punk (seja lá o rótulo que lhe queiram colar),
obriga a destacar uma banda que sempre reinou acima das outras: Siouxsie and
the Banshees.
Ao longo dos anos, fui colecionando e escrevendo
sobre marcos da discografia deles, desde a incontornável "Christine"
(1980), passando pela compilação *Once Upon a Time/The Singles (1984), até ao
envolvente "Face to Face" (1992). E, a título de curiosidade doméstica, a
"Peek-a-Boo" acabou por se tornar a música preferida das minhas
filhas.
A minha devoção à banda levou-me a vê-los ao vivo
por duas vezes, em duas fases muito distintas.
A primeira vez foi num evento que ficou para a
história (pelas boas e más razões): a I Mostra de Música Moderna da Figueira da
Foz, no Estádio Municipal José Bento Pessoa, no dia 7 de Agosto de 1993. O
cartaz era de luxo e eu fui lá especificamente para ver os portugueses
Braindead e Tédio Boys, e a grande senhora Siouxsie.
No meio disto tudo, estavam uns ingleses ainda
muito imaturos e novinhos chamados Blur. Como nunca fui grande fã da cena
Britpop, a coisa já não me puxava muito, mas o pior foi a logística.
Ainda vivíamos num período de relativa imaturidade
no que diz respeito à produção de concertos ao vivo por cá.
Reza a lenda que os ingleses demoraram o tempo que
quiseram a montar o palco, com um resultado desastroso: a organização viu-se
obrigada a suspender as atuações das bandas portuguesas. Pelos menos, do que me
recordo, os Almadenses, Braindead, não chegaram a tocar.
Valeu-nos o encerramento da noite com Siouxsie
& The Banshees, uma banda seminal que, mesmo ali, provou como consegue
abraçar estéticas e gerações diferentes.
A segunda vez foi num ambiente bem mais controlado
e memorável a nível pessoal: no Coliseu do Porto, em 1995. Fui com o meu irmão
Miguel. Fazendo as contas rápidas (ele nasceu em 1979), tinha os seus 16 anos.
Tenho quase a certeza de que terá sido o primeiro grande concerto internacional
da vida dele. E que batismo de fogo!
Nota: A rubrica do Arquivo Estereopositivo serve para recuperar posts antigos do blogue — em alguns casos, textos
escritos há largos anos. O objetivo é dar-lhes uma nova roupagem e formatação,
garantindo que a essência e o conteúdo original se mantêm, mais ou menos,
intactos, sendo que o texto acima é uma dessas viagens no tempo.

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