Arquivo Estereopositivo: A Árvore Genealógica dos Kyuss e o Som do Deserto


A Génese: De Black Sabbath ao Deserto de Palm Desert

Para se entender a árvore genealógica do Stoner Rock, temos inevitavelmente de olhar para as raízes britânicas de Birmingham. Os Black Sabbath fundiram o metal e criaram a cadência arrastada e pesada que viria a definir o Doom e o Stoner. Mas foi no início da década de noventa, quando o "Grunge" estava no auge, que um pequeno grupo de putos pegou nessa herança de Iommi e companhia, levou-a para o deserto da Califórnia (a famosa “San Diego – Palm Spring - Desert Rock Scene”), ligou os amplificadores a geradores e criou a mais alucinante banda de sempre: os Kyuss (pronuncia-se kaius).

Falo, claro, da formação mítica por onde passaram John Garcia, Josh Homme, Nick Oliveri, Alfredo Hernandez, Scott Reeder e Brant Bjork. Ganharam estatuto de banda de culto nas famosas Generator Parties, tocando no meio do deserto, onde a areia, as drogas e o álcool eram o prato forte da ementa. Mais tarde, documentários fabulosos como "Such Hawks, Such Hound: Scenes From the American Hard Rock Underground" viriam a documentar na perfeição este movimento contra-sistema.

Kyuss: O Álbum Perfeito e a Higiene Oral

Conheci Kyuss em 1998 e o meu álbum favorito absoluto é o de 1994, Welcome to Sky Valley. Fiquei de tal maneira arrepiado com a primeira audição que só me apetecia fugir, correr alucinado para o meio das dunas e ouvir o som pesado e poderoso que saía da guitarra do Josh Homme. Quase todos os temas são hinos, mas basta atentar em "Freedom Run" para perceber o peso emocional e sónico deste disco.

Mas para perceber a verdadeira importância desta banda, coloquem a tocar a "Demon Cleaner" numa festa, num bar ou num concerto relacionado com Stoner/Doom, e veem uma grande parte dos presentes a entoar a plenos pulmões: “I've got the demons in me, I've got to brush them all away...”.

Há aqui uma nota curiosa e hilariante sobre esta música. No livro Precious Metal: Decibel Presents the Stories Behind 25 Extreme Metal Masterpieces, Josh Homme confirma que escreveu a "Demon Cleaner" sobre... lavar os dentes! Ele tinha uma obsessão com higiene dentária e um historial de sonhos vívidos em que os dentes lhe sangravam. Ele próprio admite que a música é sobre limparmo-nos: “[…] you gotta keep yourself tight […]”. Quem diria que um hino stoner era, afinal, um incentivo à ida ao dentista.

O Regresso a Portugal: Kyuss Lives! e a Transformação em Vista Chino

Sempre sonhei vê-los, ao ponto de, em Fevereiro de 2010, quando soube que o John Garcia ia fazer uma tour europeia a cantar êxitos dos Kyuss, Slo Burn e Unida, ter escrito aqui no blogue a procurar malta para alugar um autocarro, levar bolinhos de bacalhau e um garrafão de 5 litros de vinho para irmos a França ou à Alemanha. Felizmente, não foi preciso.

A 22 de Junho de 2011, vivi o concerto de uma vida no Hard Club, no Porto. Os Kyuss Lives! apresentaram-se com John Garcia, Brant Bjork, Nick Oliveri e o guitarrista Bruno Fevery. Este concerto gerou até um bootleg (CDr) mítico chamado "Hurricane in Porto".


Infelizmente, muito drama se seguiu. Um processo judicial intentado por Josh Homme e Scott Reeder obrigou a banda a mudar de nome. Nasceram os Vista Chino, que editaram um álbum brutal em 2013 chamado Peace (com Nick Oliveri a gravar o baixo antes de ser substituído por Mike Dean dos C.O.C. nos palcos). Desse disco destaco a pujante "Dragona Dragona" ("dragão fêmea" em espanhol), com um riff estrondoso. O próprio John Garcia confessou que gravou as vozes desta faixa usando o microfone vintage U87 que pertenceu a Jim Morrison — algo que o intimidou e inspirou em partes iguais.


Por falar em John Garcia e em influências vocais, vale a pena recordar o que ele disse à revista The Skinny em 2013 sobre o que o levou a cantar: "Um tipo no meu autocarro (...) deixou-me ouvir uma música chamada 'She Sells Sanctuary' dos The Cult. Fiquei fanático. (...) Esse álbum foi a principal razão pela qual comecei a cantar – é tudo por causa do Ian Astbury.".

Brant Bjork & The Bros: O "Desert Boogie Man"

Outro dos grandes obreiros do som do deserto foi o baterista original dos Kyuss, Brant Bjork (que gravou o primeiro disco aos tenros 17 anos). Para mim, ele é o verdadeiro Desert Boogie Man. Depois de passar pelos Fu Manchu (nos álbuns clássicos para andar de skate como Action is Go, King of the Road e California Crossing), lançou-se a solo com discos imensos como Jalamanta e Punk Rock Guilt.

Lembro-me perfeitamente do concerto dele no Porto Rio, a 15 de Novembro de 2008, trazido pela mítica Cooperativa dos Otários. Sentir aqueles primeiros riffs, a deslizar embalados por um rufar de bateria envolto numa doce linha de baixo, foi uma "Strange Trip". Marcianos e astronautas, deixar a música tomar conta da vida por alguns instantes.

Para quem quiser mergulhar na vibe dele, recomendo procurarem o filme documental "Sabbia", com banda sonora sua, e ouvirem atentamente hinos de liberdade como "Let the Truth be Known".


Fu Manchu: Fuzz, Skate e Asfalto

E já que falei da passagem do Brant Bjork pelos Fu Manchu, não posso deixar a banda de Scott Hill de fora deste compêndio. O California Crossing pode ter marcado o fim da ligação com o Brant Bjork, mas os Fu Manchu continuaram a ser uma máquina oleada de riffs.

Em Fevereiro de 2010 fui vê-los ao Santiago Alquimista, em Lisboa. Começaram logo a rasgar com «Hell On Wheels» e atiraram-nos clássicos atrás de clássicos: «Boogie Van», «Godzilla», e temas novos da altura como «Bionic Astronautics». Uma banda que ao vivo não falha, como a revista Invisible Oranges tão bem descreveu em 2013 sobre a malha "Robotic Invasion": "Estes mercadores californianos dos bons momentos sabem como fazer um riff ou dois, por isso não é surpresa que esta bomba de fuzz enterre os dentes diretamente no centro de prazer do vosso cérebro."



Queens of the Stone Age (E as Gardênias de Iggy Pop)

E chegamos, finalmente, à banda mais mediática a sair da fornada Kyuss: os Queens of the Stone Age. Sigo a banda religiosamente desde 1997, altura em que lançaram um Split EP com os Kyuss (e onde está cravada uma versão espetacular da Into The Void dos Black Sabbath, fechando o ciclo das minhas influências). A grande ironia e tristeza de tudo isto? É a única banda deste extenso rol que nunca consegui ver ao vivo.

Sob a batuta de Josh Homme, os QOTSA têm toneladas de riffs brilhantes. Num inquérito antigo da NME sobre o melhor riff de sempre, revoltou-me ver tantas omissões históricas, mas os QOTSA merecem lá estar. Músicas como "Burn the Witch", "In My Head" ou a incrível "Suture Up Your Future" do Era Vulgaris (que, nas palavras de Homme, é sobre "olhar em frente e estar a cagar para o que se está a passar") são provas da genialidade deste homem.

Genialidade essa que se estendeu ao supergrupo Them Crooked Vultures (com Dave Grohl e John Paul Jones), responsáveis por petardos como "Scumbag Blues".

Mas há uma ligação poética recente. Pensei, inocentemente, que não voltaria a ouvir uma canção de Iggy Pop merecedora dos seus hinos nos Stooges. Enganei-me. Em 2016 paralisei com o disco Post Pop Depression, produzido por... Josh Homme. O destaque vai para a faixa "Gardenia". Não a confundam com a outra magistral "Gardenia", a dos Kyuss do meu adorado Sky Valley (também composta por Homme). Será esta a flor favorita do líder dos Queens of the Stone Age? Uma coisa é certa, ambas as músicas têm em comum o prazer, desejos escondidos e os sonhos no deserto.




Para terminar esta extensa odisseia, reciclo um Top 10 que fiz em Dezembro de 2009 para celebrar o 10º aniversário do falecido e mítico site Stonerrock.com. Os álbuns essenciais para qualquer amante de guitarras de afinação baixa: "Kyuss" - (Welcome to) Sky Valley; "Nebula/Lowrider" - Split; "Karma to Burn" - Almost Heathen; "Monster Magnet" - Powertrip; "Electric Wizard" - Let Us Prey; "Queens of the Stone Age" - Rated R; "Boris" - Heavy Rocks; "Eagles of Death Metal" - Peace Love Death Metal; "Black Sabbath" - Vol. 4; 
"Eternal Elysium" - Spiritualized D.

Se chegaram até ao fim deste post, o meu muito obrigado. Liguem os amplificadores, deixem o Fuzz entrar e "Let the Truth be Know".

Playlist / Links Referidos:


Nota: A rubrica do Arquivo Estereopositivo serve para recuperar posts antigos do blogue — em alguns casos, textos escritos há largos anos. O objetivo é dar-lhes uma nova roupagem e formatação, garantindo que a essência e o conteúdo original se mantêm, mais ou menos, intactos. O texto que produzi é um trabalho de consolidação: reuni mais de quatro dezenas de publicações escritas ao longo dos anos sobre os Kyuss e as suas várias ramificações. Uma autêntica viagem pelo deserto californiano. No final tem hiperligações para o material que aqui é referido que, por falhas de formatação do Blogger, não consigo inserir diretamente no texto.

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