Disorder: O Mistério da Cassete, o Cérebro Humano e "The Rampton Song"

 


Nunca me deixa de espantar a forma como o nosso cérebro funciona e como certas memórias ficam adormecidas, apenas à espera do gatilho certo para voltarem à superfície. Este post é exatamente sobre isso, sobre música e sobre a forma curiosa como, às vezes, a vida nos permite fechar ciclos pois, há muitas décadas — mesmo muitas —, quando eu andava no Colégio Internato dos Carvalhos, o Maarten (que é coautor neste blogue) emprestou-me uma cassete que eu simplesmente devorei.
 
De um lado, tinha o mini LP dos Minor Threat, que viria a assumir-se como um dos discos que mais me influenciou ao longo de toda a minha vida em termos de gosto musical. Do outro lado, era uma verdadeira compilação de peso: tinha Black Flag (com destaque para "Paralysed"), Dead Kennedys, os nossos M'as Foice, entre outros.

Mas havia ali um "problema" pois, durante anos e anos, perguntei sucessivamente ao Maarten sobre uma música em particular que estava gravada nessa fita e que nunca conseguimos identificar.

Não é que estava a ouvir uma playlist baseada no álbum Beat the Bastards dos The Exploited no Spotify, quando o algoritmo decide tocar uma música dos Disorder, que, segundo vim a descobrir, é um clássico do punk britânico. 

Ora, não é que logo aos primeiros acordes o meu cérebro se ilumina? Acenderam-se as campainhas todas e mais algumas. Eis que descubro, ao fim de tantos anos de ignorância, a identidade daquela faixa perdida: era a "The Rampton Song"!

Foi incrivelmente bom fechar este círculo que andava a pairar na minha cabeça há tantos anos e, como é óbvio, mandei logo uma mensagem ao Maarten a contar a proeza para receber a seguinte resposta lapidar: — "Credo !"

Para quem não tem a banda no radar, como era o meu caso, os Disorder são lendas do punk britânico. Formaram-se em Bristol, Inglaterra, em 1980, e foram uma das bandas na linha da frente do movimento "protest punk" e da famosa vaga UK82

O seu som era tão cru, agressivo e carregado de fuzz e distorção que acabaram por ser pioneiros naquilo que viria a evoluir para o crust punk e o hardcore europeu. Para terem uma ideia do nível de barulho, o lendário radialista da BBC, John Peel, descreveu os primeiros singles da banda dizendo que soavam a "motos Triumph Bonneville".

Quanto à música em questão, a "The Rampton Song", trata-se da faixa de abertura do EP Mental Disorder, lançado em 1983. É um concentrado brutal de velocidade e raiva num registo DIY (Do It Yourself) sujo, perfeito para espelhar a alienação e a revolta daquela época. Os vocais rasgados e a bateria frenética são o cartão de visita de uma banda que vivia (e soava) no limite.

Obrigado, cérebro, e obrigado, Spotify, por me terem devolvido esta peça do puzzle da minha adolescência!




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