Crónicas de Um Surfista de Meia Idade (16.ª): Que bem que sabe surfar de calções !


Há dias em que o mar parece não colaborar e a vontade de ficar em terra firme parece falar mais alto. Ainda por cima, com as câmaras a mostrarem um mar bastante pequeno, o desfecho parecia óbvio. 

No entanto, bastou uma rápida troca de mensagens no grupo das Manhas Submersas para acender a vontade. Até porque. para quem já não tem o privilégio de ir à água todos os dias e que, por vezes, passa semanas em seco, esta entreajuda é o empurrão de que precisamos para nos atirarmos ao mar. 

Como já não surfo com tanta regularidade, estes pequenos momentos de incentivo ganharam uma importância desmedida. 

Arranquei para fazer os trinta e tal quilómetros até à praia num autêntico descargo de consciência, com as expectativas lá em baixo. O mar estava, de facto, muito pequeno. Mas guardava um luxo raro para quem surfa na região Norte: a possibilidade de entrar na água, com uma temperatura de 20.º graus, apenas de calções e licra. 

A sessão durou pouco mais de uma hora, num daqueles beach breaks mesmo em frente ao campo de futebol da Praia da Aguçadora onde partilhei o pico com meia dúzia de bodyboarders mais novos. Houve até espaço para alguma pedagogia, ensinando regras de prioridade aos mais novos, valendo a preciosa ajuda dos bodyboarders mais velhos que os acompanhava. 

Com a maré completamente vazia e com potência baixa, aquela praia ganha, naquele sítio,  uma energia extra e com o ambiente de cordialidade dentro de agua, foi uma sessão excelente.

A verdade é que, há uns anos, nem sequer concebia entrar num mar assim. Mas, à medida que envelhecemos, começamos a apreciar as coisas de outra maneira. Aliás, da mesma forma que há uns anos não apreciava Jack Johnson – que foi a banda sonora perfeita para esta sessão – agora faz todo o sentido a sua música que, neste mar pequeno, ganhou um outro sentido.

Inevitavelmente, lembrei-me daquela cena do Big Wednesday,  quando os amigos se reencontram dentro de água e um dele diz que só surfa quando é precisoAs vezes é preciso mesmo surfar !

Mas a verdadeira magia não esteve no tamanho das ondas, esteve na profunda sensação de leveza. Estar no oceano sem a armadura pesada do neoprene, sentindo a água diretamente na pele, traz um nível de comunhão com o mar que normalmente não conseguimos ter. É uma liberdade imensa.

No final das contas, uma hora nestas condições revelou-se a melhor ferramenta possível para limpar a cabeça. Digo-vos com toda a certeza: bate aos pontos qualquer comprimido ou banho de gelo. 

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