A procura habitual por concertos de stoner, doom ou punk ao fim de semana levou-me ontem a Molenbeek. Tinha lido uma pequena referência aos Tarmak Abra e decidi arriscar. Quando cheguei, deparei-me com uma fila enorme.
O evento não decorria numa sala tradicional, mas sim num espaço aberto, enquadrado por edifícios antigos e industriais degradados.
O público era muito diverso, exibindo uma liberdade estética total. Cerca de 200 pessoas aguardavam para entrar, e os cem bilhetes disponíveis na porta, pelo que percebi esgotaram rapidamente, uma vez que o restante já tinha sido vendido online.
Inicialmente, pensei que toda aquela afluência se devesse à curiosidade e popularidade da banda. Estava redondamente enganado: as pessoas estavam ali essencialmente por causa do Wrestling.
Ao entrar, o espaço contrariou qualquer expectativa de um concerto normal. O palco estava montado lado a lado com um ringue. Confesso que os desportos de combate, mesmo estas encenações, me desperta muito pouco interesse, mas aquilo a que assisti fugia à norma.
Tratava-se de um espetáculo de wrestling de contornos libertários e queer, conduzido pela drag queen Vaca Profana, a Bovina Divina.
Foi neste ambiente singular que os Tarmak Abra atuaram. A banda serviu de banda sonora orgânica ao evento, tocando de forma ininterrupta e enérgica entre as 20h00 e as 22h40. Um verdadeiro teste de resistência e entrega que merece todo o respeito.
Quando os combates no ringue terminaram, a maioria do público foi embora. Foi então que os músicos ofereceram mais duas canções à centena e meia de pessoas que decidiu ficar. O resultado foi uma comunhão genuína, com o público a saltar de forma despreocupada, num regresso direto e libertador à energia da adolescência.
A banda reflete a diversidade cultural que é tão comum na Bélgica atual: Tamira, espanhola, assume a voz e a guitarra; Thalys, originária da República Democrática do Congo, está no baixo; e Eric, o baterista, é neerlandês. Além da atitude forte em palco, mostraram ser de uma simpatia enorme após o concerto.
Sobre a sua música, recusam rotular influências precisas. No entanto, de forma objetiva, podemos dizer que a sua identidade soa a uma mistura da urgência dos The Osees, da agressividade dos Black Flag na fase de Henry Rollins e da crueza do álbum "Incesticide" dos Nirvana.
Embora a música deles ainda não esteja presente nas redes sociais, o cenário está prestes a mudar. O lançamento de um single está para breve, seguido da edição de um EP.
São um projeto a reter. Da minha parte, tentarei vê-los novamente no próximo dia 25 em Charleroi ou a 28 em Liège.
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