Cresci rodeado pelos discos de música erudita do meu pai — aos quais, em bom abono da verdade, nunca liguei nenhuma —, cruzados com as marchas militares do exército vermelho, o António Variações, os ABBA e os Boney M da minha mãe.
Todavia, a banda sonora que realmente vivi e senti na pele foi a dos discos do Zeca Afonso, a música de intervenção e os velhos 7 polegadas da "N'Gola".
Ontem sonhei com a capa do "Venham Mais Cinco".
Lembro-me dos vincos no cartão deste vinil com uma nitidez tal, como se ele ainda estivesse no mesmo sítio de sempre: no escritório do meu pai, na casa do meu avô.
Sempre que oiço esta música, sou transportado no tempo. Regressa o cheiro a couro da poltrona do meu pai, a imponência dos livros velhos, as estátuas de Angola e o velho gira-discos a rodar sobre o enorme tapete vermelho que preenchia a sala.
No meio deste cenário, oiço o meu irmão mais novo aos berros a correr à minha volta, a minha mãe atarefada na cozinha, a voz da minha avó a ecoar pela casa, o meu pai a fumar em silêncio... e, lá ao fundo, o inconfundível cheiro a óleo queimado que escapava da oficina do meu avô.
É este o mundo inteiro que me vem à memória quando ouço estes acordes.
Obrigado, Zeca.
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