A minha primeira tentativa de produzir um texto sobre música, na vertente puramente histórica, surgiu em 2007. Confesso que uma das ideias por trás da criação do blogue Estereopositivo prendia-se exatamente com esta possibilidade: poder escrever sobre a história da música através das bandas de que mais gostava. Comecei muito novo a ler biografias de músicos, histórias sobre bandas e reportagens de concertos, e pensei: "se eles conseguem, eu também consigo".
Foi com este espírito que, em 2007, me enfiei na Biblioteca Almeida Garrett à procura de jornais e revistas de música antigas, como o Blitz, para alimentar a minha curiosidade sobre os Grito Final. O resultado dessa odisseia foi um mergulho profundo numa banda que marcou a minha adolescência.
“…Grito Final, uma voz, uma palavra, muito mais que um berro, um grito já que o silêncio é rei nesta terra de surdos-mudos.” > — Fanzine “Cadáver Esquisito”, Janeiro/Fevereiro de 1986.
| Fanzine “Cadáver Esquisito”. |
Porquê escrever sobre os Grito Final?
Esta foi a pergunta que alguns amigos me fizeram. Afinal, não são mais do que uma banda Punk dos anos oitenta que deixou duas músicas gravadas na mítica coletânea da Ama Romanta, Divergências, e um ensaio, sob a forma de Demo tape, no já distante ano de 1986. Não pretendo fazer uma tese profunda sobre o fenómeno Punk em Portugal, nem um laudo aos Grito Final como "a banda que podia ter sido".
Estávamos no início da década de noventa e eu era um puto de 14/15 anos. Como milhares de miúdos da minha geração, era devoto de Dead Kennedys, Black Flag e Minor Threat, e tentava fugir de casa para ir ver concertos dos X-Acto, Inkisição e, quando queria ser mais radical, Gangrena.
Nessa altura, alguém me gravou uma cassete com a coletânea Divergências. “Ouve os Grito Final. Vais gostar,” disse-me. Tinham um som menos agressivo e com uma base rítmica mais forte, típico de algumas bandas que, anos mais tarde, vim a descobrir. Corri a cassete toda até ouvir o baixo inicial da faixa "Ser Soldado". Peguei noutra cassete virgem e gravei imediatamente "Ser Soldado" e "Bairro da Fome", juntando-lhes X-Acto (Metes-me Nojo), Inkisição (Porcos Fascistas), Censurados (Animais), Peste & Sida (Veneno) e Vomito (Sou Só Mais Um), entre outras de que já não me recordo.
Foi a minha cassete de eleição durante os meses seguintes. A banda sonora oficial das viagens de comboio para Coimbra, Póvoa de Varzim, Lisboa ou Porto. Eram as músicas que se ouviam, e partilhavam, no walkman em tardes de surf em Cortegaça.
Os Grito Final representavam aquilo que eu sentia na altura: revolta e alguma consciência social. Fui educado pelo meu pai, não com a força do chinelo, mas sim ao som de José Mário Branco, Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira e Fausto. Cresci com respeito pelo meio ambiente, pelas minorias e pelos animais (cheguei mesmo a participar numa manifestação Anti-Touradas em Espinho).
Mas, acima de tudo, os Grito Final eram um pequeno tesouro que os meus amigos não conheciam. Sei que era um sentimento egoísta mas, como qualquer fanático de uma banda, sentia que eles eram “meus”. Nessa altura era um puto formatado: tudo o que não viesse com a sigla Punk, Anarquia, Caos ou Revolta, eu não gostava. Era um bocadinho limitado, confesso.
O Portal Chamado "Divergências"
Depois de muitos meses, decidi voltar a ouvir a Divergências na íntegra. Queria ver se existia mais alguma banda com um som parecido.
Faço aqui uma pequena nota histórica: a Divergências é o resultado da convergência de vontades de 14 bandas portuguesas (e de alguns músicos individuais) que, como se de uma cooperativa se tratasse, criaram um duplo LP, em 1986, com o objetivo de produzir e divulgar música sem restrições.
Na altura, João Gobern, no extinto jornal Sete, reconhecia o disco e as bandas nele presentes como uma verdadeira rutura contra o império radiofónico estabelecido e o “top-disco”, referindo-se à obra como “…um título e um exemplo dos novos caminhos da música portuguesa. Mas é também um ponto de partida para uma reflexão sobre o que é e para onde vai a música ‘de todos nós’…”.
Quanto a mim, a verdade é esta: se não fossem os Grito Final, eu não teria voltado à Divergências. Não saberia o que era a mítica editora Ama Romanta e, muito provavelmente, não teria chegado aos Pop Dell' Arte, aos Santa Maria Gasolina em Teu Ventre ou aos Mão Morta. Tal como uma abelhinha trabalhadora, comecei a investigar de onde vinha o som daquelas bandas obscuras.
Comecei a ouvir Pixies, Joy Division, Sonic Youth, The Fall, Beastie Boys, entre muitos outros. Escavei mais fundo e descobri Neil Young. Entendi o fenómeno Grunge e aprendi a respeitar e a gostar de música eletrónica. A minha mente ficou recetiva a toda uma infinidade de realidades musicais.
Por isso é que os Grito Final foram tão importantes para mim. Fizeram parte do meu imaginário Punk de adolescência, mas funcionaram como a porta de entrada para um universo musical gigantesco.
A História Incompleta: Os Anos de Combate (1983 - 1986)
1983 - As Raízes na Ajuda: Os Grito Final nasceram no Bairro da Ajuda, construído durante o antigo regime e que seguia uma linha de integração das camadas mais baixas da população. A classe operária que lá habitava era oriunda de meios rurais, pelo que a vivência naquele bairro reproduzia a solidariedade de uma aldeia no seio de uma grande cidade, criando nos habitantes uma forte sensação de pertença e entreajuda. Foi neste ambiente proletário que surgiram diversas bandas durante a segunda vaga Punk nacional, entre elas os Grito Final. O seu primeiro concerto ter-se-á realizado em Setembro, na Escola Secundária Ferreira Borges.
1984 - A Teia e a Estabilização: O ano começa com um concerto n'A Teia durante o mês de Janeiro. Logo de seguida sofrem diversas baixas na formação mas, com um guitarrista convidado, atuam novamente n'A Teia a 28 de Julho, no que foi considerado o primeiro festival Punk português. O único elemento da formação original que restava era Cazé (Baixo). Em Setembro, a formação estabiliza-se finalmente com: Alexandre (bateria, vindo da anterior banda de Cazé, os Vítimas da Sociedade); João (guitarra, a substituir Jorge Nunes que fundaria os Condenação Pacífica); e Luís Human (voz). É com este alinhamento que, em Dezembro, tocam novamente n'A Teia com os Fúria Tribal e Napalm Climax. O panorama nacional estava a mudar: nascia o Blitz; António Sérgio divulgava Gun Club, Joy Division e Motorhead na rádio; e no Porto, as produções Novo Fogo e Arte organizavam concertos de Sétima Legião e GNR. Era neste ambiente que bandas como Grito Final, Crise Total, Ku de Judas e Cães, a Morte e o Desejo tentavam manter viva a chama de 1976.
1985 - A Estrada e o Rock Rendez-Vous: A banda continua a dar concertos n'A Teia, partilhando o palco com Mata-Ratos, Ku de Judas, Crise Total, Jovem Guarda e Linha Geral. Com vontade de sair da capital, publicam no Blitz (a 5 de Março, no espaço “Trocas/Vendas”) o seguinte anúncio: "Somos os Grito Final (punk rock) e gostaríamos de tocar no Porto, Coimbra e Braga. Tocamos em todos os lugares em benefício de quem não tenha salários e/ou outros casos. Contactar: Cazé – Travessa da Boa Hora à Ajuda…". Em Julho, conseguem rumar a Aveiro para a Agitarte 85, um dia dedicado ao Punk organizado pelo Grupo de Apoio à Cultura Subterrânea. Lá partilharam o palco com a mítica banda local Cagalhões (onde militava um jovem Óscar, mais tarde nos Renegados de Boliqueime e Cães Vadios) e com os Bastardos do Cardeal (de Viseu, futuros Major Alvega). Tocaram ainda no Teatro Sousa Bastos, em Coimbra, e chegaram a inscrever-se no 2.º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous, mas não foram selecionados (numa edição onde os Ena Pá 2000 foram considerados "promessas interessantes" e os Pop Dell' Arte venceram o Prémio de Originalidade).
1986 - O Legado Gravado: O ano que marca a implantação do CD em Portugal e a despedida dos Crise Total (no RRV), é também o ano do derradeiro registo dos Grito Final. Além de um ensaio gravado em formato demo (com um som relativamente fraco), a banda eterniza-se na escassa discografia portuguesa ao incluir os dois míticos temas na coletânea Divergências.
Tanto quanto consegui apurar, existe por parte da editora “Zerworks” a vontade de editar uma das músicas dos Grito Final no Volume II da sua série de Raridades, que chegou a estar previsto para Julho de 2009 (num 7" que incluiria também Ku de Judas e Condenação Pacífica). Continuamos a aguardar...
A Playlist: Grito Final
Para ouvirem a agressividade e a linha de baixo inconfundível que me prenderam a atenção nos anos 90, deixo aqui os links diretos para as duas músicas registadas na coletânea Divergências:



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