Arquivo Estereopositivo: Uma Noite no Porto, a "Receita" do Sr. Melo e o Transe dos Wooden Shjips


Ontem, sábado, 08 de novembro de 2008, fui jantar a casa de uma amiga. Um excelente caril, uma garrafa de vinho maduro branco a 12%, um copo de amêndoa amarga com limão, o estupor do DVD do Le Dîner de Cons que teimava em não funcionar e o desejo que ela tinha de não ficar em casa, levaram à decisão mais sensata: sair.

Pega no carro, coloca o CD do Tommy Guerrero no leitor e cá vamos nós com a Soul Miner aos berros.

A Rota da Baixa e a Tasca do Sr. Melo

Conseguimos estacionar a "biatura" ao lado do Quiosque Chinês. Saímos, indecisos sobre que direção tomar. Rosa Escuro, Mutantes, Piolho, Lusitano ou Café Ceuta eram tudo possibilidades válidas. Lá me convenceram a tomar um café no Armazém dos Chás. Segundo ela, tínhamos de ir cumprimentar a Sofia. Quem sou eu para discutir com ela, e muito menos para recusar ir cumprimentar a Sofia? (Aliás, recomendo vivamente que vão ao Armazém dos Chás cumprimentar a Sofia).

Já à porta, arrebitado pelo frio e enquanto olhava para o edifício brutal que é a antiga Fábrica de Chocolates da Regina, perguntei: "Ké, adonde bamos? Está na altura da meia de leite e da tosta mista!". Do outro lado responde ela: "Sim senhor, tu mandas. Vamos ao Piolho". E lá fomos nós, duas almas perdidas pela José Falcão, em direção à Faculdade de Ciências e ao Piolho.

A meio do caminho, a Ké vira-se para mim e pergunta: "Conheces o Sr. Melo?". "O Sr. Melo??? Mas é claro que... NÃO conheço o Sr. Melo".

Sou um inculto. O Sr. Melo é o orgulhoso dono de uma tasca (desculpem, Estabelecimento Comercial de Restauração e Bebidas) que fica nas traseiras do Lumiere, ao lado do Teatro Carlos Alberto, conhecido por servir uma "Receita" de vinho verde, açúcar e cerveja. Beber aquilo lembrou-me o meu avô. Sentado no final da sua mesa de mármore, com vista para o quintal, com uma "Receita" de meio litro e um pastelão de ovos e chouriço de colorau. O Sr. Melo e a sua esposa, conhecidos de longa data da Ké , são afáveis e simpáticos.

Deixámos a promessa de lá ir jantar um dia, mandou-se abaixo uma jarra PEQUENINA de receita, e toca a andar para o Piolho. Nada de especial, o habitual crowd universitário com menos de 27 anos de idade e meia dúzia de caras conhecidas.

O "Assalto" aos Maus Hábitos

Já meio trôpego de sono — eram 00h30!!! — rumámos às Galerias Paris para ter com a Salomé e o namorado. No meio daquela multidão, o "Astro Kid" (o Rui) veio ter connosco (obrigado, Salomé). Este gajo tinha passado o dia todo a moer-me o juízo por causa de um concerto nos Maus Hábitos.

Eu queria ir para a cama cedo (como se isto fosse algo de anormal em mim), mas o Astro Kid não largou o meu pé e convenceu-me a ir ver uma banda que eu desconhecia. (Acho que ele queria que eu fosse por uma outra razão qualquer...). "Tu vais gostar", "É daquele psycho marado que tu gostas", "És maluco se não fores", dizia ele. Cheio de sono, com a minha garrafinha de água na mão, lá fui arrastado. Aqueles cromos não existem. Parece que um diz mata, o outro diz esfola. Eu juro que queria sossego — além de no carro estarmos a ouvir Earthless aos berros, aqueles dois, quando se juntam, não param quietos nem se calam.

Em direção aos Maus Hábitos, recebemos o cartão de consumo e subimos a escadaria toda até ao último andar. Uma vez lá dentro, o Rui foi buscar bebidas e nós fomos em direção à sala de concertos. Chegámos à porta e esticámos o braço para mostrar o carimbo do bar. O rapaz da entrada, muito simpático, do género stoned head muito cool que não quer problemas com o mundo, pergunta pelos bilhetes. "Bilhetes??? Só temos cartões de consumo..." "Ah... Bem... são precisos os bilhetes." "Ok... um minuto que eu vou falar com um amigo meu e volto já."

Eu não gosto de fazer isto. Os concertos são caros, em 98% dos casos os bilhetes chegam apenas (e só) para pagar o cachet da banda, e os tipos que organizam estes eventos são porreiros. Mas... eu não sabia quem eram os tipos que iam tocar, não me apetecia estar a pagar 8 euros por um concerto que não me dizia nada e, repito, ESTAVA COM SONO! 

Tal como no surf, esperámos pela onda maior de pessoal a entrar e, lá no meio, eu e a Ké levantámos o braço e mostrámos o carimbo. O crime foi cometido. Fiquei com remorsos. No final da noite, apeteceu-me chegar ao pé do porteiro e pagar-lhe os 8 euros em bebidas.

O Transe Psico-Sónico dos Wooden Shjips

A primeira banda, uns tais Sic Alps, deu cabo dos meus ouvidos. Não gostei. Comecei a pensar para os meus botões: "...Se isto é assim, então estou lixado". "Quero dormir!!!", gritava eu por dentro, mas ninguém ouvia. Pudera, a munição estava bem por cima da minha cabeça.

De qualquer forma, estava bem com o Astro Kid e com a Ké. E eis que entram em cena 4 gajos vindos de San Francisco: os Wooden Shjips. Um deles era o Nash, que queria ir em tournée com os Heads e ofereceu uma t-shirt fabulosa do "Frisko Freakout" à Ké. O vocalista/guitarrista, Ripley, a primeira coisa que diz quando chega ao microfone é "Echo Echo Echo", e o som propaga-se por uma sala bem recheada.

Alto, que isto pode ser que prometa. E realmente o Astro Kid tinha razão.

A primeira música, que penso ter sido a We Ask You To Ride, tirou-me logo o sono. Comecei a entrar em transe. Aquilo é um psycho/garage/krautrock/new wave do caraças. Qual droga, qual álcool, qual quê!!! A munição estava em cima das nossas cabeças e o volume estava de tal forma no máximo que a linha de baixo e o loop de bateria quase me deixaram hipnotizado. Eu e o Astro Kid ficámos a olhar um para o outro do género: "F***, esta merda é muito fixe".

Um excelente concerto. Não me recordo quanto tempo durou. A partir daquele momento era fechar os olhos e ser embalado pelas descargas sónicas da guitarra e pelo grito alucinante do órgão. Jefferson Airplane, The Doors, Iron Butterfly, Blue Cheer, 13th Floor Elevators, Neu!, Kraftwerk, Joy Division... O que quiserem. São bem capazes de encontrar bocadinhos de todos eles no som dos Wooden Shjips.

O Fim da Noite

Os outros dois foram para o Triplex dançar a noite toda. É assim mesmo. Como diria o Lemmy (nos Probot): "Rock out, make it quick / My, my, my, let it rip / Rock out, feeling good / Break your heart / Shake your blood."

Eu? Eu decidi ir comer um cachorro para os lados da marginal de Gondomar. Hasta my Friends!

Playlist da Noite (Links para escuta):


Comentários