É curioso pensar em como chegamos a certas bandas. Ao contrário de muita gente, não cheguei aos Einstürzende Neubauten por via dos Bad Seeds ou do Nick Cave. Que fique claro: reconheço-lhe imensa qualidade e sei que é um dos grandes vocalistas e autores do nosso tempo, mas, tirando o álbum Dig, Lazarus, Dig!!!, confesso que nunca fui o seu maior fã.
A minha porta de entrada para o caos industrial dos Neubauten foi muito mais crua e acidental.
Corria o ano de 1993. Havia um punk que costumava vender discos em frente à Praça da Batalha, no Porto. Numa dessas paragens, comprei-lhe dois álbuns: o Still Angry, Still Hungry dos franceses Les Thugs, e o Fünf Auf Der Nach Oben Offenen Richterskala dos Einstürzende Neubauten.
Os Les Thugs não foram surpresa; era o tipo de hardcore na linha de Bad Religion que eu já conhecia e gostava. Já o disco dos Einstürzende Neubauten, confesso: comprei-o pura e simplesmente porque adorei a capa. Nunca os tinha ouvido na vida.
Quando cheguei a casa e coloquei o vinil a rodar no prato, foi um autêntico estrondo. A barragem sonora era tão ruidosa e metálica que os meus pais vieram a correr ao quarto perguntar que diabo de maquinaria é que eu tinha ali ligada!
Ao longo dos anos, já deixei aqui no blogue outros registos sobre eles.
Tinha um post sobre a visceral "Meine Seele Brennt" (cujo teledisco incrível é assinado pelo Peter Sempel, nascido em Hamburgo e que trabalhou com Nick Caver, Nina Hagenm entre outros. O grito do Blixa Bargeld quando solta "Meine Seele Brennt". A minha alma queima. Desde puto que este grito me arrepia. Blixa, parte de um silêncio profundo para um grito lancinante, psicotico e sádico, com um toque de tristeza.
E outros dois dedicados às "MoDiMiDoFrSaSo" (que é o acrónimo dos dias da semana em alemão, para quem alguma vez se perguntou!) e à "Yu Gung (Fütter mein Ego)”, qualquer coisa como alimenta o meu ego.
Mas o resgate de hoje pertence a "Sabrina", uma faixa hipnótica do álbum Silence is Sexy (2000). A letra e a cadência desta música obrigam-nos a olhar para dentro. Porque é impossível escapar àquilo que somos.
Tal como o reflexo no espelho, que nos vigia e persegue cada vez que desviamos o olhar, vislumbrando aquela sombra negra que quer escapar e fugir, acabando sempre por mergulhar bem fundo dentro de nós.
Einstürzende Neubauten - Sabrina
Nota: A rubrica do Arquivo Estereopositivo serve precisamente para recuperar posts antigos do blogue — em alguns casos, textos escritos há mais de 15 anos. O objetivo é dar-lhes uma nova roupagem e formatação, garantindo que a essência e o conteúdo original se mantêm, mais ou menos, intactos, sendo que o texto acima é uma dessas viagens no tempo.
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