A música que dá título a este texto remete-nos imediatamente para os Judas Priest, baluartes do Hard n’ Heavy que definiram não apenas um som, mas toda uma iconografia. É impossível esquecer a imagem de Rob Halford a irromper pelo palco montado numa Harley-Davidson, personificando uma virilidade que, paradoxalmente, escondia a sua verdadeira essência à vista de todos.
Para o espanto de uma comunidade que, por vezes, se revela curiosamente conservadora, Halford — envolto em cabedal, correntes e uma estética que evocava claramente o universo do bondage — acabou por declarar a sua homossexualidade na MTV. Olhando para trás, a surpresa da época parece quase ingénua perante tamanha evidência visual.
Contudo, o foco central desta reflexão recai sobre a obra literária "Hell Bent for Leather". Este livro é um relato prodigioso sobre a existência de um devoto do género — evitemos o termo "metaleiro", que tanto nos desajusta — durante o período fulcral que separa a New Wave of British Heavy Metal da ascensão do Nu Metal, percorrendo o arco temporal entre o ocaso dos anos setenta e o dealbar da década de noventa.
A leitura é compulsiva; em pouco tempo, um terço das suas páginas foi já devorada. Seb Hunter escreve com uma elegância rara neste género de literatura, imbuindo a narrativa de um humor refinado e de uma profusão de episódios que despertam a curiosidade mais profunda de qualquer melómano. O autor consegue transpor para o papel, de forma vibrante e absolutamente aliciante, o que significa realmente ser um entusiasta fervoroso de um movimento musical, com todas as suas idiossincrasias e paixões desmedidas.
A obra não se limita a ser uma cronologia de bandas ou concertos; é uma exploração sobre como a música molda a identidade. Através das histórias partilhadas por Hunter, somos transportados para uma época em que a pertença a uma tribo urbana era uma declaração de princípios, muitas vezes incompreendida pelo mundo exterior. Para quem, como eu, aprecia o rigor histórico aliado a uma escrita envolvente, este livro revela-se uma peça essencial para compreender os mecanismos da devoção cultural.

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