Não pensem que sou um iluminado que há 13 anos, com apenas 20 de idade, decidiu mergulhar de cabeça no mundo atmosférico, eletrónico e proto-punk (ou o que lhe queiram chamar) do Krautrock. Não sou o Julian Cope e nunca gostei do Stockhausen. A história é bem mais mundana.
Quando li o "Oceans of Sound" do David Toop, decidi ir à Ananana, em Lisboa, e pedi para ouvir um disco do Stockhausen... Tentei ouvir durante alguns minutos... Logo abandonei a missão. Sou sincero (e com o risco de ser crucificado): nunca mais tive coragem de o voltar a ouvir.
A sede das empresas do meu pai ficava no Candal, em Vila Nova de Gaia — berço da Luciana Abreu e dos Gémeos Guedes. Quando andava na faculdade, passava imenso tempo por lá. Fazia uns trabalhitos de secretariado, ia aos bancos, atendia clientes e entregava encomendas pelo Porto, Gaia, Maia e Gondomar (fiz centenas de viagens para Atães e para os restaurantes na marginal do Rio Douro).
Sempre que tinha uma folga, fugia para fumar uns cigarritos com o Chico. Ele era um tipo porreiro, mais velho, que adorava Sisters of Mercy, Joy Division e afins. Uns anos antes, o Chico tinha passado uns tempos na Escócia, onde comprou o The Faust Tapes. Comprou-o pela mesmíssima razão pela qual eu mantive o disco na minha posse durante mais de uma década: a capa era muito fixe! Sim senhor, confesso. Fiquei com o disco porque a capa era incrivelmente diferente de tudo o que eu tinha visto até então. Tentei ouvi-lo várias vezes, mas a verdade é que não achava piada àqueles sons demasiado experimentais.
Em abono da verdade, nessa altura eu já conhecia Kraftwerk. Tinha o Computer World e o The Man-Machine. Sabia também que os Repórter Estrábico tinham feito uma excelente versão da música "More" dos Can para o seu álbum 1 Bigo. Todavia, não fazia a mínima ideia do que era o Krautrock, nem de que havia qualquer ligação entre Faust, Can e Kraftwerk.
Um dia, comecei à procura de álbuns antigos dos Kraftwerk. Dou de caras com o vídeo de "Ruckzuck" no YouTube e fiquei colado ao ecrã. Fiquei tão extasiado quanto os membros da audiência desse mesmo vídeo. Logo a seguir, surge-me um link para os Neu!. Apanho a "Hallogallo" e fico parvo a pensar: "Mas o que é isto?". Entretanto, alguém me falou do Head Heritage do Julian Cope e do Krautrocksampler. Bem... foram precisos apenas meia dúzia de dias para começar a devorar Neu!, Amon Düül, Popol Vuh, Tangerine Dream, Can, etc.
No pós-Segunda Guerra Mundial, uma geração de músicos vindos de locais tão distantes da Alemanha Ocidental como Munique, Colónia, Frankfurt, Düsseldorf ou Berlim partilhava um desejo comum: fazer música que não fosse Blues, Rock ou Schlagermusik. Queriam criar um som original, internacional, mas que não soasse a anglo-saxónico ou americano. O advento dos sintetizadores deu uma ajuda preciosa, mas foi a imensa intensidade criativa que se fazia sentir na Alemanha que gerou este fluxo musical, mais tarde batizado de Krautrock pelos ingleses.
Este ano a BBC 4 transmitiu um documentário excecional sobre o Krautrock que aborda todo este movimento. Percorre as raízes sociais e políticas da Alemanha da época; fala da ligação dos Amon Düül com o grupo Baader-Meinhof; mostra a influência do movimento em cineastas como Werner Herzog, Wim Wenders ou Fassbinder; conta como Damo Suzuki entrou para os Can; relata a presença de David Niven no primeiro concerto dos Can; recorda a reunião de Brian Eno com os Harmonia e até a enorme influência sobre o álbum Low do David Bowie. O documentário está disponível no YouTube, dividido em 6 partes e com boa qualidade. Vale muito a pena ver.
Entretanto, descobri esta pequena pérola de Krautrock no YouTube: "Mother Sky". É uma das faixas do álbum Soundtracks dos Can, que compila músicas gravadas para diversos filmes. Esta, em específico, serviu para "Deep End", realizado em 1971 pelo Jerzy Skolimowski. Marca um momento de viragem: a saída de Malcolm Mooney, por aparentes razões do foro psiquiátrico, e a entrada de Damo Suzuki.
E, para que fiquem surpreendidos pela versatilidade musical do Damo Suzuki e dos Can, deixo também "Vitamin C", gravada em 1972 para o lendário álbum Ege Bamyasi.

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