O Último Fora-da-Lei do Rock n' Roll: A Vida Segundo Lemmy

                                            

"White Line Fever", editado em 2004 pela Simon & Schuster, figura, sem qualquer margem para hesitação, entre as leituras mais gratificantes que cruzei nos últimos tempos. Esta biografia de Lemmy Kilmister, narrada num discurso direto que nos coloca frente a frente com o protagonista, revela-se empolgante e estimulante — um ritmo frenético que não poderia ser de outra forma, tratando-se de um autêntico pioneiro da vertente mais veloz do género. O próprio Lemmy, com o seu humor cáustico, confessou numa entrevista a um canal alemão que, após concluir a leitura da sua própria vida, ficou impressionado pelo simples facto de ainda estar vivo.

Contudo, para quem conhece a densidade do seu historial, o livro deixa uma certa nostalgia de quem deseja mais. Falamos de uma existência que transborda episódios: das digressões intermináveis aos excessos químicos, das mulheres à presença constante no cinema e nos videojogos, até ao icónico concerto de homenagem pelo seu quinquagésimo aniversário, onde os próprios Metallica se renderam ao mestre. Há ainda a sua cruzada pessoal contra a heroína, o fascínio histórico pela Segunda Guerra Mundial e o rumor, quase surreal mas poético, de uma possível condecoração como "Sir" pela Coroa Inglesa.

Ao observarmos o panorama atual, a figura de Lemmy ergue-se com uma crueza refrescante. Enquanto a maioria dos músicos da sua geração se limita a reciclar material antigo como se de uma pastilha elástica sem sabor se tratasse, os Motörhead mantiveram uma cadência de lançamentos e uma energia em palco que envergonha os dinossauros do rock. É impossível não traçar o contraste: onde uns se converteram a dietas puristas e passeios em jatos privados, ou se perdem em hotéis de cinco estrelas que já ninguém ousa vandalizar, Lemmy permanece fiel ao asfalto.

A agenda de concertos da banda é, por si só, um testamento de resistência. Ele continua a ouvir, a compor e, acima de tudo, a manter uma honestidade intelectual rara. Embora as suas opiniões musicais possam por vezes surpreender — como a sua declarada apreciação pela sonoridade dos Evanescence em meados desta década —, a verdade é que a sua capacidade de escrita permanece intocável. Desenganem-se aqueles que veem nele apenas um hedonista inveterado; a profundidade de temas como "1916" demonstra uma sensibilidade lírica que transcende o ruído das guitarras.

O que verdadeiramente perdura da herança de Lemmy, algo que já se vislumbrava nos tempos dos Hawkwind, é a naturalidade desarmante com que cria as suas composições. Não há artifícios nem compromissos comerciais. As letras são diretas, cruas e, acima de tudo, honestas — um espelho fiel da vida que escolheu levar. Na arte, como na diplomacia ou no direito, a coerência entre o criador e a obra é a característica mais nobre que se pode almejar.

Comentários

BRESLAU disse…
Valeu pelo toque! Vou comprar rapidinho!

Abraço do BRESLAU!