Black Sabbath: A Eterna Urgência de "Children of the Grave"



Falar dos Black Sabbath é, inevitavelmente, levantar o véu sobre uma das minhas mais antigas e vitais referências musicais. Dificilmente consigo conceber a minha vida sem as composições esculpidas pela formação histórica de Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward. 

Quando regresso a esta era, um dos meus refúgios de eleição é o Master of Reality, de 1971. Sendo provavelmente o álbum mais obscuro e introspetivo da banda (como já referi num post anterior sobre a "Solitude"), as atmosferas densas criadas pelos temas, pelas letras e, claro, pela afinação pesada e arrastada do baixo e da guitarra, acabaram por plantar as sementes que dariam origem a todo um subgénero: o Doom Metal.

Desta obra-prima destaco uma faixa que tem rodado em loop nos meus ouvidos nos últimos dias: "Children of the Grave". Lançada como single, esta musica tornou-se um hino inescapável nos concertos ao vivo, mantendo-se firme no alinhamento de Ozzy Osbourne até aos dias de hoje e marcando presença obrigatória em qualquer best-of da banda. Mas, para além daquela cavalgada sonora formidável que nos obriga a abanar a cabeça durante cinco minutos ininterruptos, é a urgência do tema escolhido que mais me marca.

Importa recordar o contexto. Estávamos no início da década de setenta e Ozzy estava longe de ser um hippie de flores no cabelo. Os Black Sabbath eram miúdos, já com fama, dinheiro e vendas astronómicas, mas que, ainda assim, se sentiam como verdadeiros "filhos da sepultura". Assombrados pelo fantasma da Guerra Fria, pela ameaça atómica e por um iminente fim do mundo, usaram esta faixa para alertar de forma crua para o imenso potencial destruidor do ser humano. Contudo, pelo meio do peso sonoro, deixaram também um apelo forte e nada ingénuo, exclamando que se queremos um lugar melhor para viver, temos de espalhar a mensagem e mostrar ao mundo que o amor ainda está vivo.

É precisamente essa consciência da nossa capacidade de destruição que ganha uma dimensão ainda mais macabra na brutal versão dos White Zombie, incluída no primeiro volume da mítica coletânea de tributo Nativity in Black

A banda introduz a música com uma voz off arrepiante ("In Los Angeles, 1969, they shot, stabbed, and bludgeoned nine people to death committing one of the most heinous crimes in history."), numa referência direta aos brutais homicídios cometidos pela Família de Charles Manson. 

Dando um salto para o presente, se eu tivesse de regravar ou produzir esta faixa hoje, a introdução falada seria diferente: começaria com um relato frio sobre os sucessivos desastres ambientais que, dia após dia, continuam a destruir o nosso mundo. 

A mensagem dos Sabbath continua, tragicamente, a fazer todo o sentido.

Comentários