Bem-vindos a mais uma viagem ao passado na nossa rubrica Arquivo Estereopositivo. Desta vez, mergulhamos nos arquivos de 2009 e 2010 para resgatar memórias de um dos períodos mais originais, subversivos e fascinantes da música portuguesa: o universo de João Peste, a mítica editora Ama Romanta e os inclassificáveis Pop Dell' Arte (e seus satélites).
O Adeus ao Vinil e o Culto Acidoxibordel
Há confissões que custam a fazer. Em maio de 2010, acabei por fazer algo que nunca pensei ser possível: vendi o meu Maxi-single original de João Peste & Acidoxibordel. Sim, aquele vinil mítico da Ama Romanta (MR0019), de 1990, com aquelas letras lindas em branco sob um fundo azul. A decisão não teve a ver com o preço, mas sim com uma atitude que comecei a cultivar de não apego às coisas materiais. No fundo, é apenas um disco... uma peça de vinil com um cartão à volta. Não devia custar, mas custou. Que se lixe. Mudei uma série de coisas na minha vida e despachar quase toda a minha coleção fez parte desse processo. Sei que essa peça da história da música portuguesa foi ser devidamente apreciada e cuidada por outra pessoa.
E que história tem este disco! Em finais da década de oitenta, após a edição do mini-LP Illogik Plastik, os Pop Dell’ Arte decidiram fazer uma pausa que duraria até 1991. Durante esse interregno, João Peste, Zé Pedro Moura, Sapo, Rafael Toral, Jorge Ferraz, Nuno Tempero, Rodrigo Amado e David Souza criaram o coletivo João Peste & Acidoxibordel.
Deram o seu primeiro concerto no Rock Rendez-Vous, a 10 de julho de 1989, voltando a pisar o mesmo palco no concerto de Natal desse ano, ao lado de nomes como Mler Ife Dada, Sitiados, Essa Entente e Mão Morta.
A duração do projeto seria efémera, dissolvendo-se logo em fevereiro de 1990 devido a divergências entre Peste e Jorge Ferraz. Contudo, em julho desse ano, saía o EP homónimo (mais tarde reeditado em CD pela Candy Factory em 2000).
O alinhamento é uma autêntica viagem: Groovy Noise-Dada Rock, Clio Software, Cocaine, Amigo, e Distante Domingo (TL-2 Napoleon). Todo o disco parece ser um portal para uma dimensão alternativa de som, imagem e cor, ligada a um novo mundo digital. Um universo lisérgico povoado por influências assumidas que iam de Sonic Youth, Jimi Hendrix e Led Zeppelin a Kurt Schwitters, Almada Negreiros e Jean Cocteau.
Como muito bem descrevia o blog A Trompa na altura:
"Eu entro em delírio com as imagens escondidas na tua mente. (...) Alucinado, ácido, meio demente, surreal, demente e meio, muito ácido, alucinado… sim, é um disco em alucinação permanente, como que vagueando etéreo pelos campos da súbita loucura. (...) Foi bom enquanto durou mas durou pouco, apenas o escasso tempo de um prazer curto mas intenso. É assim Acidoxibordel. (...) A obra de João Peste e dos que o acompanham, tem sempre o seu quê de perturbante, desenquadrada dos limites da normalidade."
E para provar esse desespero poético e perturbador, basta recordar os versos de Clio Software:
"Tinha as mãos dormentes e os meus olhos iluminavam-se de violeta. Podia até sentir o espírito de Rimbaud adormecendo lentamente no meu colo..."
Cocktail de 2010: O Regresso de Pop Dell' Arte
Avançando para 2010, o ambiente no país pedia uma banda sonora adequada. Lembro-me de fazer um "cocktail" mental na liquidificadora com os seguintes ingredientes: i) O livro "Portugal, que Futuro? O tempo das Mudanças Inadiáveis", de Medina Carreira; ii) Uma entrevista de José Sócrates na RTP; iii) O Homer Simpson em pânico (a representar o homem médio português); e iv) Pop Dell' Arte (que andava a ouvir incessantemente).
O resultado dessa mistura? "TOO FAR GONE, AND NO WAY BACK...". Esta frase remetia para o tema No Way Back (uma cover brilhante do original de Adonis), um dos três temas novos incluídos na compilação Poplastik de 2006, a par de J’ai Oublié (All My Life) e Stranger Than Summertime.
Nesse mesmo mês de maio de 2010, os Pop Dell' Arte preparavam o regresso aos discos com Contra Mundum (o seu quarto álbum de originais). O single de avanço, Ritual Transdisco, já rodava no defunto Myspace da banda. Lembro-me da curiosidade em vê-los ao vivo com a formação da altura: João Peste (voz), Zé Pedro Moura (baixo), Paulo Monteiro (guitarra), Nuno Castedo (bateria) e Eduardo Vinhas (teclas e percussão). Já não os via desde 1995, na era gloriosa de Sex Symbol.
As Raízes na Ama Romanta
Toda esta viagem não estaria completa sem recuar a 1986. Numa altura em que andava de volta da história, a tentar passar os discos da mítica editora Ama Romanta (fundada por João Peste) para formato MP3, reencontrei o máxi-single Querelle / Mai 86. É, sem dúvida, uma das amostras do período mais original e interessante da música nacional.
Arriba Avanti Pop Dell´Arte!
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