"Quando vemos o planeta como um organismo, torna-se obvio quem são os inimigos do planeta. Têm uma legião de nomes. Dominam e povoam o planeta. Os enganadores e os enganados que por sua vez se enganam. Pensariam o Homo Sapiens que os outros animais existiam apenas para ele os comer? Parece que sim. As escavadoras destroem as florestas tropicais, os lémures acossados e as raposas voadoras, os grandes gibões canoros de kloss que produzem a mais bela e variada música do mundo animal e os lémures colugo planadores , que não se safam em terra. Vai-se tudo para dar lugar a mais gado humano sem valor, cada vez com menos centelha viva, o ingrediente sem preço - a energia para a matéria. Um grande lamaçal de barro sem alma". William S. Burroughs, "O Fantasma da Oportunidade", tradução Telma Costa, 1997, Editorial Teorema.
Neste excerto, Burroughs revela uma faceta ecologista e de uma misantropia profunda que foge bastante ao imaginário urbano e alucinogénico a que o seu público habitual está habituado, sendo esta uma reflexão dura e, infelizmente, cada vez mais atual sobre o peso destrutivo da nossa espécie.
A grande ironia no meio desta densidade toda? O meu cérebro tem uma incapacidade crónica para processar a palavra "lémures" de forma séria. Por mais sombria e brilhante que seja a prosa, mal leio essa palavra, a tragédia ambiental desvanece-se e o que me vem imediatamente à cabeça é o excêntrico Rei Juliano do filme Madagáscar.
Entre o "lamaçal de barro sem alma" de Burroughs e o "I like to move it, move it", vai uma distância abismal, mas é com esta fantástica dissonância cognitiva que vos deixo este vídeo.

Comentários