A palavra Angola advém do Kimbundu "Ngola". Historicamente, "Ngola" não designava uma tribo ou um povo, mas sim um pedaço de ferro que os Mbundu tinham como símbolo de poder, acabando por ser utilizado para referir o Rei (como Ngola Kiluanji ou Nzinga Mbandi Ngola).
Mais tarde, as autoridades coloniais portuguesas adotaram o termo para todo o território, dando origem ao nome do país.
Para mim, contudo, a palavra N'Gola tem um significado muito mais pessoal.
O meu pai esteve em Angola durante a Guerra Colonial, onde prestou serviço até 1973. De lá, além de máscaras, quadros e estátuas, trouxe consigo dois discos de 7" da editora N'Gola.
Estes pequenos discos de vinil acompanham-me desde que nasci. Ainda hoje guardo filmagens dos anos oitenta onde eu e a minha prima Coro dançávamos, ainda miúdos, ao som destas pérolas. Foi exatamente daí que nasceu o meu fascínio pela editora N'Gola, pelo Semba e por toda a riqueza da cultura angolana.
A Editora N'Gola e os Estúdios Valentim de Carvalho
No final da década de sessenta, ainda sob administração colonial, nasceram os Estúdios Valentim de Carvalho em Luanda, que se mantiveram em atividade até 1975.
Na altura, eram considerados dos estúdios de gravação mais avançados do mundo, rivalizando diretamente com os melhores estúdios europeus.
Foi neste contexto de excelência técnica que se criou a editora N’Gola, registando momentos musicais brilhantes de diversos músicos e estilos.
Muito desse som foi recuperado em coletâneas excelentes da Som Livre, como Os Reis do Semba e Angola - As 100 grandes músicas dos anos 60 e 70.
No entanto, o objetivo deste post é trazer à luz algumas gravações da N'Gola que continuam perdidas em singles de 7" espalhados pelo mundo.
O Sabor da Memória: Entre a Moamba e o Vinil
O primeiro disco desta série é um dos meus favoritos e traz-me sempre aquilo a que um amigo chama de "boas vibrações". Hoje é o dia ideal para publicar isto.
Ontem à noite, fui jantar a casa de uma amiga, a Linda, e fui surpreendido com uma fabulosa "Moamba de Galinha" preparada por uma amiga nossa angolana, a Eduarda.
A Moamba é um prato tradicional que eu costumava comer em casa da Eduarda quando era miúdo. Leva galinha, óleo de palma (dendém), quiabos, courgettes e, graças a Deus, ela decidiu colocar pouco gindungo.
Com o estômago reconfortado, vamos ao que interessa.
Os Discos na Gira-Discos
1. Makgolokgolo – "Majuba" / "Batwanyana" (N'Gola NGI-1008, 1973)
Durante anos, pensei que o nome deste disco era "African Jazz" devido à inscrição curiosa na capa e à inclusão de saxofone nas músicas.
Contudo, tal como nos Estados Unidos, o Jazz na África do Sul sofreu uma enorme influência da população negra e das restrições do Apartheid, criando um género próprio precisamente batizado de African Jazz.
A N'Gola era mais conhecida pelos seus Sembas do que por edições de African Jazz.
Os Makgolokgolo terão sido uma banda formada por sul-africanos, e não sei se chegaram a gravar nos estúdios de Luanda ou se há mais registos deles.
* O Lado A ("Batwanyana"):
Tem um sabor forte a Funk, Afro-Beat e Samba. É uma autêntica bomba para qualquer pista de dança. Nas festas de garagem lá de casa, no meio de Technotronic e Snap, eu passava os Makgolokgolo.
O tema está creditado a R. Bopape e M. Naukwane. Rupert Bopape foi um produtor histórico que, após passar pela EMI, criou a Mavuthela Music Company em 1964 (a "Motown" da África do Sul). "M. Naukwane" será muito provavelmente Marks Mankwane, lendário guitarrista das Mahotella Queens.
* O Lado B ("Majuba"): A música "Sihunyime Thokozile" está creditada a S. Nkabinde.
Trata-se, quase de certeza, de Simon "Mahlathini" Nkabinde, o "Leão do Soweto". Cantor Zulu célebre pela sua voz profunda, cavernosa e gutural (evidente nesta faixa), Mahlathini foi o vocalista das Mahotella Queens.
A sua fama levou-o a atuar no aniversário de Nelson Mandela e para mais de 500.000 pessoas no Central Park em 1991.
Faleceu em 1999 e foi condecorado com a Order of Ikhamanga pelo governo sul-africano em 2005.
2. Musangola – "Trigo Limpo" / "Lamento"
Este é o outro single que o meu pai trouxe de Angola. O agrupamento Musangola nasceu em 1964, integrando talentos como Honorato Silva, José Maria da Silva "Kiavulanga", José Alves "Kitas", João Afonso Kipaca, Santo António Gaita, Mário Sebastião da Silva e Kalabeto.
Na viragem para a década de setenta, a banda eletrificou o seu som com a compra de guitarras e amplificadores, passando a abraçar todo o tipo de estilos. Numa altura em que o tesouro da "Ngola" é cada vez mais procurado por DJs e produtores globais, é essencial lembrar estes registos.
Uma nota curiosa: o Lado B deste 7", a faixa "Lamento", foi incluída na coletânea da Som Livre de 2006 (Angola - As 100 grandes músicas), mas surgiu creditada com o título "Laurento".
Curiosidade de Vinil: O EP do Conjunto De Oliveira Muge – A Mãe (N'Gola – NGAE 501). Ao contrário dos singles dos Makgolokgolo e dos Musangola que detalhei acima, este disco em particular não pertencia à coleção original do meu pai, mas não deixa de ser um pedaço fantástico e curioso do vasto catálogo da editora N'Gola!
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