![]() |
| 1ª formação no Bico Dourado. Jorge Machado, Rueda, Carlos Fernando, Mário Simões e Jaime Nascimento. |
O Conjunto de Mário Simões é hoje recordado com um venerável afecto, mais do que se fazia supor há uns bons anos. Como outras bandas da época, Mário Simões fica para a história da música ligeira portuguesa como um grande impulsionador e divulgador da boa música dançável, hoje frequentemente catalogada como Easy Listening Português. É com este espírito de memória viva que revisito a história de Mário Simões e do seu Conjunto cujo post mantem a data da sua publicação original, mas foi revisitado.
Os Primeiros Acordes e a Orquestra Star Dust
Mário João Pereira Simões começou cedo nas lides da música, influenciado pelo seu pai, violinista na Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional e da Rádio Voz de Lisboa. Aos 17 anos, já estava à frente da orquestra Caravela e, enquanto cursava Agronomia, passou para a regência da Orquestra Internacional e para a Orquestra Star Dust, pelas mãos de Carlos Villaret.
É precisamente na Orquestra Star Dust que toma contacto com os ritmos brasileiros que executaria, por exemplo, no memorável Carnaval de 1946, no Restaurante Alvalade.
![]() |
| Os Star Dust - Carnaval de 1946 (Restaurante Alvalade). Da esquerda para a direita: Sousa Pinto, Carlos Villaret, Mário Simões, Jorge Machado e Olivier. Em baixo, A. Herlander. |
Foi também nesta época que os caminhos de Mário Simões e Jaime Nascimento se cruzaram. Jaime Nascimento, um talento multifacetado (desenhador no Ministério das Obras Públicas e campeão de natação pelo Belenenses), havia chegado a Lisboa em 1948. Após mostrar as suas aptidões num teste em casa de João Villaret, adquiriu aquela que viria a ser a primeira guitarra eléctrica em Portugal. Em 1950, Carlos Villaret chama-o para integrar os Star Dust, onde conhece Mário Simões.
O Nascimento do Conjunto (1950)
A formação do Conjunto Mário Simões dá-se num momento de impulsividade. Mário Simões teve um desentendimento com o dono do restaurante onde tocava e despediu-se de imediato. Convidou então Jorge Machado (que na altura mal conhecia) para formar um novo grupo. A eles juntaram-se o baterista Rueda, o contrabaixista e vocalista Carlos Fernando, e Jaime Nascimento na guitarra.
Foi esta formação pioneira a responsável por gravar, pela primeira vez, a emblemática Canção do Mar/Peixinho no Mar. O som inovador da guitarra eléctrica e o enorme dinamismo e alegria com que Mário Simões conduzia o reportório tornaram o grupo num verdadeiro caso de sucesso.
A capa do disco de 78 rotações com a Canção do Mar que infra coloco pertence à minha colecção pessoal. Confesso que o que mais me atrai nesta autêntica relíquia de goma-laca encontra-se no Lado B: o tema O Peixinho do Mar.
Trata-se de uma adaptação de um baião nordestino dos anos 30 e 40 (que os Onda Choc viriam a recuperar numa versão na década de 90). O imenso carinho que nutro por esta música vem de longe, pois conheci-a através da minha saudosa prima Carmen, que a cantava à filha e ao meu irmão mais novo.
Hoje, a tradição mantém-se viva lá em casa, sendo eu e a minha mulher a cantá-la às nossas duas filhas.
A Época de Ouro e o Casino do Estoril (1953-1958)
Ao fim do primeiro ano, Carlos Fernando abandona o grupo, e Jaime Nascimento assume a voz e a guitarra. Em 1953, surge um convite irrecusável para actuar no Casino do Estoril. Com a saída de Jorge Machado (que decidiu formar o seu próprio conjunto), o grupo é reforçado com o exímio pianista e acordeonista Hélder Reis e o contrabaixista de mérito Raul Paredes.
![]() |
| 2ª formação no Casino do Estoril Mário Simões (acordeão/piano e voz), Raul Paredes (contrabaixo), Jaime Nascimento (guitarra/vibrafone/voz), Rueda (bateria) e Hélder Reis (piano). |
O sucesso foi avassalador. Multiplicaram-se os convites para as Queimas das Fitas do Porto e Coimbra. Gravaram autênticos êxitos como O Lápis do Lopes, Borracha do Rocha, Flausina, Cinderela, Pente Para Quê?, Anda o fado noutras bocas, Tudo pouco ou nada e Ai o meu Baião . Acompanharam Amália Rodrigues em disco e foram os responsáveis por dar a conhecer ao público a voz de um jovem chamado Carlos do Carmo. O prestígio era tal que, em 1957, com o nascimento da RTP, foram o primeiro conjunto a actuar nos ecrãs da televisão portuguesa.
Interregno, Regresso e os Anos 60
No final de 1958, Mário Simões e Rueda partem para cumprir um contrato no Hotel Polana, em Moçambique. O grupo não parou, passando a chamar-se "Conjunto Hélder Reis". Durante este período, Hélder delegou a escolha do reportório em Jaime Nascimento, que acabou por ser convidado a gravar três discos a solo, popularizando temas como É maluco e é barato e O gato da Joana, tá bem dêxa.
Em 1959, Hélder Reis decide iniciar uma carreira a solo no formato piano-bar. Coincidentemente, Mário Simões regressa a Portugal e refaz o conjunto, actuando em locais de renome como a "Choupana" e, mais tarde, na "Cave", em Lisboa, fazendo ainda digressões pela América e Canadá.
![]() |
| 3ª e última formação na Boite Cave. Mário Simões, Raul Paredes, Jaime Nascimento e Domingos Costa Pinto. |
Mário Simões era um apaixonado pelo futebol (escreveu marchas para o Sporting, Benfica e Belenenses), fervoroso adepto dos Beatles, amante de Jazz e mestre a fundir tudo com a Bossa Nova. Essa sagacidade e profissionalismo valeram-lhe o merecido cognome de "Rei da Noite".
Os Últimos Anos de um Mestre
Em 1970, Mário Simões opta por uma carreira a solo. A partir de 1986, fixa-se no Casino da Figueira da Foz, onde manteve a sua enorme popularidade até 1999. O seu contributo para a cultura foi reconhecido com várias homenagens, culminando com a atribuição da Medalha da Cidade, entregue pelo então Presidente da Câmara, Pedro Santana Lopes.
Em 1999, com mudanças na direcção do Casino, Mário Simões regressou a Lisboa. Infelizmente, a doença de Alzheimer começou a tomar conta de si, vindo a falecer de pneumonia em Dezembro de 2005. A sua morte passou quase despercebida ao grande público, excepção feita a uma sentida homenagem promovida pela Freguesia de Ovar.
Jaime Nascimento (que após 1970 se dedicou aos teclados, acompanhando Shegundo Galarza durante 30 anos) resume na perfeição o impacto do seu amigo: "Considero o Conjunto Mário Simões um virar de página na música portuguesa e uma referência para outros conjuntos que depois foram aparecendo... sobretudo pelo dinamismo e alegria do Mário, pela forma como conduzia o reportório, pelas suas composições e pela interpretação instrumental e vocal.".
Agradecimentos:
Um agradecimento especial ao Carlos Santos (pelo seu incansável trabalho de divulgação no seu blogue música dos anos sessenta) e, de forma muito profunda, ao Jaime Nascimento, na sua família, pela cedência do precioso arquivo fotográfico e pelas diversas horas de conversa e partilha de memórias inestimáveis que tornaram este texto possível.





Comentários