Conheci-o como um dos convidados do Real Combo Lisbonense, liderado por João Paulo Feliciano, no concerto-baile ao ar livre que decorreu em Lisboa, a 4 de outubro de 2010, para comemorar os 100 anos da República. Na altura, já com noventa anos, Jaime Nascimento subiu ao palco e tocou A Borracha do Rocha.
Foi o ponto de partida para redescobrir um excelente (e atualmente quase desconhecido) cantor e guitarrista português. Nas décadas de 40, 50 e 60, ombreava com Carlos Meneses (do Conjunto de Shegundo Galarza) como um dos pioneiros da guitarra eléctrica na música ligeira portuguesa, sendo provavelmente o primeiro músico nacional a incorporar este instrumento no seu reportório na década de cinquenta.
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| Rafael Amorim e João Paulo Feliciano em 2015 |
Os Primeiros Anos e o Conjunto Mário Simões
Nascido a 19 de maio de 1920, Jaime teve contacto com a música desde muito cedo — uma arte que, mais tarde, chegaria a ensinar em troca de pastéis de nata. Começou a sua carreira por intermédio de Carlos e João Villaret, fazendo parte dos Star Dust (de curta duração), onde se cruzou com Mário Simões e Jorge Machado.
Conciliando uma vida profissional ligada ao Ministério das Obras Públicas com a veia artística, Jaime Nascimento encontrou o seu espaço de consagração no Conjunto Mário Simões. Este grupo foi um verdadeiro viveiro de talentos (de onde saíram nomes como Jorge Machado, Fernando Machado e Raul Paredes). Com Mário Simões, Jaime gravou diversos discos — dois deles com Amália Rodrigues e Carlos do Carmo —, fez digressões pelo Canadá e América, animou inúmeros bailes em Portugal e apresentou-se pela primeira vez na RTP, logo em 1957.
O Interregno: Hélder Reis e a Carreira a Solo (1958-1959)
Em 1958, Mário Simões e Rueda saem temporariamente para cumprir um contrato de um ano no Hotel Polana, em Moçambique. É nesta altura que Hélder Reis (um talentoso pianista e acordeonista algarvio que se juntara ao grupo em 1953) toma a direção do conjunto.
Aproveitando este período, Jaime Nascimento enceta uma breve carreira a solo, acompanhado pelos colegas, marcada pela gravação de EPs incontornáveis para a história da nossa música. Destes trabalhos, editados pela Alvorada, destacam-se faixas como "Nasci cansado", "O gato da Joana" e "Tá bem dêxa".
Nesta fase com Hélder Reis à frente do grupo (que chegou a gravar a versão de "Torero" de Renato Carosone com Jaime na guitarra), o conjunto aperfeiçoou os célebres Corridinhos. Com o regresso de Mário Simões em 1959, a formação volta ao nome e estatuto originais, e Hélder Reis acaba por sair pouco tempo depois.
De Shegundo Galarza às Artes Plásticas
Após um breve período de apresentações a solo (ao piano e à guitarra), Jaime é convidado, em 1972, para integrar o Conjunto de Shegundo Galarza, onde permaneceu até à morte do Maestro, em 2002. Após este triste acontecimento, dedicou-se exclusivamente a tocar teclas e a cantar em hotéis, restaurantes e eventos sociais.
A sua vitalidade sempre foi impressionante. Em 2005, descobriu uma nova vocação: tornou-se num verdadeiro autodidata nas artes plásticas, pintando telas em acrílico e fazendo retratos a carvão. Continuou a atuar na RTP (2005) e nos programas de Fátima Lopes (2008 e 2010), tendo sido também premiado com a medalha de honra da Cruz Vermelha pelos seus espetáculos beneméritos.
“…Jaime Nascimento… parece que vejo a cara dele, à minha frente, naquele concerto. Recordo perfeitamente o som da guitarra dele que parecia chorar quando ele fazia aqueles dedilhados. Um dos melhores guitarristas do seu tempo, sem dúvida alguma…” — António Policarpo (guitarrista do Conjunto Oliveira Muge), 2009.
A Arca do Tesouro: Os EPs Raros (breve discografia):
Jaime Nascimento com o Quarteto de Mário Simões - Tá Bem Dêxa (EP Alvorada MEP 60396 - 1958/59)
Faixas: Esses Teus Olhos / Tu Sabes Bem / Tá Bem Deixa / Prece
Jaime Nascimento - Outros EPs a Solo (Alvorada)
MEP 60193: Torero / Manhattan / Selecção de Fados / Carinhoso
MEP 60182: Sei que vais partir / Já te disse tanta vez / Croquetes e Filetes / Nasci Cansado
MEP 60126: É maluco e é Barato / Azenha Velhinha (Fado de Santa Cruz) / Dó-Ré-Mi / Lá Piu Bella Del Mondo
A história de Jaime Nascimento é a história da modernização da música ligeira em Portugal. Que a sua guitarra elétrica continue a ecoar na nossa memória.





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