Lovecraft: O Medo do Desconhecido e a Porta de Entrada para Arkham


"For them are the catacombs of Ptolemais, and the carven mausolea of the nightmare countries. They climb to the moonlit towers of ruined Rhine castles, and falter down black cobwebbed steps beneath the scattered stones of forgotten cities in Asia. The haunted wood and the desolate mountain are their shrines, and they linger around the sinister monoliths on uninhabited islands. But the true epicure in the terrible, to whom a new thrill of unutterable ghastliness is the chief end and justification of existence, esteems most of all the ancient, lonely farmhouses of backwoods New England; for there the dark elements of strength, solitude, grotesqueness and ignorance combine to form the perfection of the hideous." — The Picture in the House

É com esta citação de bater o queixo que começo a falar de um dos maiores vultos do horror cósmico. Para tentar perceber o que ia na cabeça do homem que imaginou o Cthulhu e o Necronomicon, não há nada como espreitar o documentário "Lovecraft: Fear of the Unknown". 

É uma verdadeira descida à loucura e à genialidade do autor, e conta com os testemunhos apaixonados de autênticos pesos pesados do fantástico e do terror, como Guillermo del Toro, John Carpenter, Neil Gaiman e Stuart Gordon. O documentário disseca na perfeição como os medos pessoais, o isolamento e os demónios de Lovecraft se transformaram numa mitologia que moldou a cultura pop atual.

Tudo isto fez-me recuar no tempo e recordar o meu primeiro contacto com o universo lovecraftiano, logo no início dos anos 2000. Curiosamente, a minha porta de entrada fez-se através de dois pequenos livros que, na verdade, albergavam exatamente a mesma história, mas com títulos e traduções diferentes. 

Falo de "O Caso de Charles Dexter Ward" (numa edição de bolso brasileira da L&PM) e de "Os Mortos Podem Voltar" (a clássica e inconfundível edição portuguesa da Colecção Vampiro, dos Livros do Brasil). Mergulhar naquela narrativa de bruxaria, ressurreições e segredos de família foi o suficiente para ficar irremediavelmente viciado na prosa densa do autor.

Para quem quiser agora dar os primeiros passos em Arkham, ou simplesmente ter o trabalho de Lovecraft devidamente arrumado na estante, deixo uma nota obrigatória. 

A editora Saída de Emergência lançou uma extraordinária coletânea dividida em vários volumes com "Os Melhores Contos de Howard Phillips Lovecraft". Para além de as edições serem muito bonitas, o grande destaque vai para a tradução: é simplesmente excelente, conseguindo capturar com enorme competência aquele tom antiquado, adjetivado e sufocante que é a imagem de marca do mestre de Providence. Leitura obrigatória para noites de insónia.



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