Numa altura em que se discute o esvaziamento do centro do Porto, da descaracterização que sofre pelo aumento, brutal, do número de turistas, do desenvolvimento económico que arrasta, para o despejo, alfarrabistas, pequenas lojas de comércio e residentes, recordo a Rua das Flores na década de noventa. Era suja, estava degradada e conservava algum do encanto daquela que fui habituado a conhecer ao longo dos anos. Foi ai que comprei, por 150$00, a primeira edição do “Os Infortúnios da Virtude”, de Donatien Alphonse François de Sade, editado na coleção Minerva de Bolso. Estas lojas eram verdadeiras preciosidades para quem, como eu, miúdo, queria comprar livros e o dinheiro era escasso. Recordo a cara da senhora quando lhe entreguei o livro para pagar. Por certo o nome do autor dava lhe urticaria. Sem saber, na realidade, que ele de forma crua, gélida e brutal coloca a nu muito do malévolo inconsciente que grassa pela mente de alguns e desfaz, no espírito da época, algumas das crenças entretanto enraizadas.

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