Arquivo Estereopositivo: Electric Wizard - We are Dorset Doom !



Não me recordava de ter escrito tantos posts sobre os Electric Wizard, especialmente ali na viragem da década, entre 2010 e 2012. Mas a verdade é que o ultra peso atmosférico das suas músicas não permite indiferenças. É daquelas bandas que nos arrepia a espinha logo nos primeiros acordes.

Formados em Dorset, na velha Inglaterra, no ano maléfico de MCMXCIII (1993), surgiram das cinzas de bandas como Eternal/Thy Grief Eternal e Our Haunted Kingdom (que mais tarde dariam origem aos Orange Goblin). Os álbuns Let Us Prey e Dopethrone são, sem qualquer sombra de dúvidas, duas das minhas pedras basilares favoritas do Doom. É no Dopethrone que consta a monstruosa "Funeralopolis"... Pesada... Alucinante. Soa como se "...alados arautos, por ordem do soberano comando, obedecendo a um cerimonial arrepiante, e ao som de trombetas, proclamassem, por todo o exército, a convocação de um conselho solene para o Pandemónio, o grande capitólio de Satã e seus pares". Vê-los ao vivo deve ser uma experiência única, um autêntico ritual. Pode ser que um dia ainda venha a ter esse privilégio.

Recuando a 1997, temos "Chrono.Naut", um E.P. em formato 10" de vinil, editado pela extinta Man's Ruin Records, que abarca a tendência mais stoner e psicadélica da banda. O Lado A, com a faixa título, traz riffs pesadíssimos, claramente influenciados por clássicos incontornáveis como "Supernaut" (na versão arrastada dos Sleep) ou "Symptom of the Universe" dos Black Sabbath. Pesada, potente e sem necessidade de qualquer resguardo, a formação original composta por Jus Oborn, Tim Bagshaw e Mark Greening cria aqui uma torrente de som capaz de furar uma montanha. Já o Lado B traz "Chrono.Naut Phase II (Chaos Revealed)", bem mais psicadélica e com muita improvisação, a lembrar as viagens cósmicas dos "Earthlings". Pode não ser a minha fase favorita dos Electric Wizard, mas é uma peça essencial para qualquer fã.

A dada altura, o vídeo que ilustrava a Chrono.Naut - nos primórdios da internet - utilizava imagens do filme Begotten. A obra é extrema e violenta, pelo que não aconselho de todo o seu visionamento a estômagos mais sensíveis. Foi a primeira experiência cinematográfica de E. Elias Merhige (o mesmo realizador de Shadow of the Vampire, o filme sobre as filmagens do "Nosferatu" de Murnau, que conta com as brilhantes interpretações de Willem Dafoe e John Malkovich). O negrume da película assentava que nem uma luva no som da banda.

Já agora, a Man's Ruin Records, foi criada em 1994 por Frank Kozik com o brilhante slogan "Empty Pleasures and Desperate Measures" e como qualquer editora independente da época, o Frank tratava de tudo: grafismo, produção, venda e distribuição. Com um catálogo vastíssimo — cujos 10" em vinil colorido são hoje peças de colecionador altamente procuradas —, a editora acabou por sucumbir em 2002 devido a problemas com distribuidores e quebras nas vendas.

Avançando para 2004, para o álbum We Live — já com o segundo line-up da banda, onde Jus Oborn era o único sobrevivente, acompanhado por Liz Buckingham na guitarra, Tas no baixo e Shaun Rutter na bateria —, deparo-me com a esmagadora "Saturn's Children":

"Crucified by the sun, In the shadow of the iron cross, Saturn's children come, Invoke the supercoven. Many armed we strike, Like wolves in the night, And the cross turns to black.... And the children of the sun, Know their time has come, Give up the fight, slip back into the night.... Turn off your mind, there's nothing to find....Find out here...."

Tanto quanto sei, não há qualquer ligação oficial entre esta música e o perturbador quadro de Goya, "Saturno devorando a su hijo". No entanto, não deixo de pensar que talvez Jus Oborn tenha ficado tão impressionado com o tema e a sua história como eu fiquei quando vi a pintura. Saturno (ou Chronos na mitologia grega) era o senhor do tempo, imutável, poderoso, que reinava sozinho e guardava o sétimo céu. Com medo que um dos seus filhos o pudesse destronar... comia-os. Uma deformação do poder, um símbolo de impotência sexual ou um sinal de decadência absoluta. Há diversas explicações para o quadro, não interessa. Para mim, como sempre, o que conta é o poder que dele emana, o autêntico murro no estômago que senti quando o encarei de frente.

Esta música convida-nos exatamente a isso: ao esquecimento e ao baixar dos braços. Entramos dentro de um buraco negro, seja no fundo da terra ou no espaço sideral. Para outro lado qualquer que não este. Tão pesado que dói, tortura, queima e apazigua!

Mas, afinal, de onde vem toda esta escuridão elétrica? Vem da própria terra que pisam. Num artigo da revista The Quietus (Janeiro de 2014), Jus Oborn respondeu de forma magistral à pergunta se o som da banda seria possível sem as suas origens no sudoeste de Inglaterra:

"I think isolationism and environment are the most important. All good heavy music is cultural: a reaction. Also coming from an area with a rich history creates a sense of identity with your environment. We are proud to be from Dorset. We weren't trying to be NYHC or something like that. We are Dorset doom. Our music resonates with our surroundings, which is rural and the old forts and ancient woods are creepy and are haunted. I don't think Electric Wizard would have existed in a larger urban environment. We needed to be isolated to create this sound."

"We are Dorset doom." Está tudo dito, numa autêntica Black Mass.

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