Arquivo Estereopositivo: O Universo Sombrio de Lenore: De Edgar Allan Poe ao Halloween

A Lenore é uma daquelas presenças que atravessa a minha vida em várias frentes: na música, na literatura, na pintura e na ilustração. A nível familiar, é a minha sobrinha, e literariamente remete-me de imediato para o mestre Edgar Allan Poe — aquele autor por quem eu e a minha querida prima Paula nos apaixonámos desde jovens adultos e sobre o qual, de vez em quando, ainda hoje falamos.
O meu fascínio pela obra dele é tal que tenho diversos livros de Edgar Allan Poe, em inglês, português, português do Brasil, espanhol... Apenas porque ia de férias e comprava um livro onde estava.
Aliás a sua influência em Portugal é, aliás, profunda, como bem nota a Biblioteca Nacional Portuguesa:
"Desde a primeira tradução conhecida de Poe (1857), passando pelo seu contributo para a poesia de Antero de Quental ou para contos fantásticos desenvolvidos por vários agentes da Geração de 70, a produtividade do escritor revela-se através de uma série de testemunhos da influência do seu poema O Corvo no nosso século XIX, sobretudo na estética decadentista-simbolista. O mesmo poema seria magistralmente traduzido por Fernando Pessoa em 1924 para Athena, órgão do primeiro modernismo português; a dívida para com Poe foi partilhada por Mário de Sá-Carneiro e estendeu-se, controversamente, à geração da Presença."
É impossível não recordar The Raven (O Corvo), ilustrado por Paul Gustav Doré. (Nota: Embora Gustave Doré tenha ilustrado especificamente o poema "O Corvo", a figura feminina fantasmagórica que muitas vezes aparece nessas pranchas representa justamente a memória de Lenore, a amada falecida que o narrador pranteia, unindo assim visualmente as duas obras mais célebres de Poe sobre a perda). O poema foi magistralmente traduzido por Pessoa:
"Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo | Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais! | Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo | É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais | Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais".
No grande ecrã, seria imperdoável esquecer o lendário realizador Roger Corman, que nos anos 60 assinou um ciclo inesquecível de adaptações cinematográficas das obras de Edgar Allan Poe. Foram filmes clássicos e atmosféricos, eternizados pela presença magnética e assustadora do icónico Vincent Price. 
Mais recentemente, e noutros registos, Jeffrey Combs é também amplamente aclamado pela sua interpretação do autor, sobretudo na peça de teatro Nevermore: An Evening with Edgar Allan Poe (2009) e no episódio "The Black Cat" (2007) da série Masters of Horror, ambos realizados por Stuart Gordon. A sua performance, elogiada por capturar o engenho e a tragédia de Poe, está também disponível em audiolivro.

Mas a Lenore é também uma das minhas personagens preferidas na ilustração. Numa visita à BdMania — uma livraria de banda desenhada com t-shirts, action figures e bonecada diversa (maioritariamente norte-americana, com clássicos franco-belgas e uma razoável seleção de autores nacionais) —, dei de caras com algo irresistível.
Se há autor que sempre foi consensual em minha casa terá de ser o Roman Dirge, criador da eterna "Lenore, the cute little dead girl" e de "The cat with a really big head". Adorei ver lá dois bustos da Lenore que não conhecia e que apeteceu colocar debaixo do braço e correr. A grande surpresa na livraria foi a descoberta de um estudo/antologia da Margaret Brundage. Conhecida pelas capas da Weird Tales (entre 1932 e 1945), ilustrou figuras sobrenaturais em contos de pulp de H. P. Lovecraft, Clark Ashton Smith, Robert Bloch ou do Conan criado por Robert E. Howard.
Alias, já cheira a Halloween... As bruxas já untam as suas vassouras com gordura de serpente... Almas perdidas vagueiam pelo limbo... Está na altura de ir buscar os meus livros da Lenore — a menina mais fofinha daquele lado do Além — e preparar o jantar de Halloween em casa do Nardo. A ementa... curiosa e saborosa, será disponibilizada em breve.

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