Existem composições que parecem destinadas a perseguir-nos, entrelaçando-se na tapeçaria da nossa própria existência de forma quase premonitória. No meu caso, essa ligação manifesta-se através de "(Don't Fear) The Reaper", a obra-prima dos Blue Öyster Cult, lançada precisamente em 1976. Há uma certa mística em partilhar o ano de nascimento com um tema que discorre sobre a inevitabilidade da finitude, embora a minha verdadeira epifania com esta melodia monumental não tenha ocorrido nos estertores da década de setenta, mas sim num reencontro tardio e televisivo.
A primeira audição verdadeiramente atenta e profunda aconteceu sob o signo da ficção contemporânea, através da série Sobrenatural. É inegável que a produção logrou a proeza de educar novas e velhas gerações no que toca ao cânone do Hard Rock americano. A atmosfera de poeira e asfalto das estradas secundárias, a caça incessante a entidades do além, exigia uma sonoridade que equilibrasse o peso das guitarras com uma lírica quase elegíaca. Neste contexto, a canção surgiu não apenas como acompanhamento, mas como a própria alma de uma narrativa que se move entre a luz e as trevas.
Contudo, a minha relação com este clássico transmutou-se definitivamente quando o drama deu lugar à sátira mais brilhante da televisão norte-americana. Refiro-me, escusado será dizer, ao mítico segmento do Saturday Night Live conhecido como More Cowbell. É um exercício de ironia sublime observar como uma meditação melancólica sobre a morte pôde inspirar um momento de comédia tão visceral. Ver Christopher Walken, com a sua presença imperturbável, a exigir freneticamente "mais chocalho", enquanto Will Ferrell se entrega a uma performance física quase demencial, altera irremediavelmente a nossa perceção da obra.
Hoje, ao escutar os acordes iniciais, a solenidade do tema é subtilmente assaltada por essa memória humorística. A febre que Walken diagnosticou tornou-se parte integrante da canção e, mal a percussão arranca, o sorriso é tão inevitável quanto a própria ceifeira que a letra tenta desmistificar.

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