O Hard Club, no Porto, transformou-se numa autêntica catedral profana para receber os suecos Ghost neste chuvoso mês de Novembro de 2015. Mais uma vez, fiz-me à estrada muito bem acompanhado pelo meu irmão Ricardo para testemunharmos ao vivo um dos fenómenos mais teatrais e fascinantes do rock/metal da actualidade.
A banda, liderada na altura pela encarnação de Papa Emeritus III e ladeada pelos seus fiéis Nameless Ghouls, trouxe na bagagem o aclamado álbum Meliora. O ambiente na sala do Mercado Ferreira Borges era de pura devoção. Os Ghost têm este dom incrível de fundir o peso do heavy metal mais clássico com ganchos pop irresistíveis e uma estética que roça o assombroso.
Mas, para mim e para o Ricardo, o que tornou esta noite verdadeiramente memorável não foram apenas os êxitos originais da banda. Foi, sem dúvida, a forma divinal (ou diabólica, dependendo da perspectiva) como escolheram encerrar a cerimónia.
No final do alinhamento, fomos brindados com duas escolhas musicais absolutamente espetaculares que mostram bem o requinte e a bagagem cultural desta banda:
1. "If You Have Ghosts" (Roky Erickson and the Aliens) Pegar num tema de um dos pioneiros do rock psicadélico e transformá-lo num hino de estádio cantado a plenos pulmões por toda a sala foi um momento de arrepiar. A letra assenta que nem uma luva na mitologia da banda, e a energia que se gerou no Hard Club durante este refrão foi indescritível.
2. "The Host of Seraphim" (Dead Can Dance) Para fechar o pano e acompanhar a saída de palco, a escolha recaiu sobre esta obra-prima etérea dos Dead Can Dance. Uma faixa densa, solene e hipnótica, que embalou o público para fora da sala como se estivéssemos a sair do transe de uma missa negra. Um toque de mestre que elevou o concerto a um patamar cinematográfico.
Foi, sem margem para dúvidas, um dos grandes concertos deste ano. Um verdadeiro ritual que nos encheu as medidas do primeiro ao último segundo.

Comentários