Nostalgias da Surf Music (Parte 1) – O Surf Rock na Surf Magazine.

A "Surf Magazine" foi uma revista de surf muito popular na década de noventa, tendo encerrado as suas atividades em finais de 2002 com a edição (Dez/Jan 2003) que partilho aqui. Nessa altura, a publicação era dirigida por Ricardo Vieira.


Curiosidade sobre esta edição: muita gente olha para a capa e julga ser o Pedro Lima (que até tem uma entrevista de destaque no interior da revista), mas um olhar atento à ficha técnica revela a verdade. Quem está ali a sacar um belíssimo aéreo em São Julião é, na verdade, o surfista José Gregório, captado pela lente de Graça Afonso.

A razão principal pela qual trago esta edição para o blog prende-se com um pequeno artigo sobre Surf Rock que escrevi para eles na altura. 

Tinha 25 anos, adorava Longboard e Surf Rock. Para quem quiser viajar até 2002 e ler o que escrevi nas páginas da revista, deixo aqui a transcrição integral do artigo:
Nostalgias da Surf Music:


Parte I - O Surf Rock
(Por Rafael Amorim, in Surf Magazine, Edição 68)

Surf não é apenas um desporto. Estamos perante um caldo de cultura que combina saúde, arte, preocupações políticas e música com desporto, traduzindo um «Surf way of life». No mundo da música, essa influência foi nítida entre 1960 e 1970, mas acabou por galgar as barreiras do tempo e veio a ser reciclada nos primeiros anos da década de 90. Este fenómeno é comum a outros estilos musicais e, tal como no revivalismo do Punk, Disco e agora no Electro-Pop, pretendeu-se adaptar o Surf Rock às novas tecnologias, mas manter o «Raw Power» - uma certa crueza - do início instrumental.
O Surf Rock era um dos mais populares estilos de música nas décadas de 60 e 70, distinguindo-se pelo som das suas guitarras e pelo seu poder instrumental. Podia parecer um som ingénuo, afinal eram músicas com três acordes, mas esta simplicidade foi extraordinariamente inovadora, pois explorava territórios que só vieram a ser realmente apreciados e utilizados no final dos anos 70 e 80, com bandas «Punk» e «Garage». O som californiano era basicamente instrumental e a sua história revela as primeiras reacções dos «putos» locais ao (re)surgimento do surf como cultura. Pretendendo imitar o som das vagas a quebrar nos «beach-reef-breaks» californianos, reproduzir a sensação de take-off, a suavidade, velocidade e força de um bottom-turn e o contacto orgânico e solitário com um «tubo», surgem bandas que traduzem adrenalina em acordes.
A primeira vaga de Surf Rock terá surgido com o single «Let's go Trippin», do «Rei» Dick Dale, que, não só foi um sucesso regional, como também inspirou bandas como os Chantays e dos Surfaris, que, posteriormente, viriam a ser sufocadas pelos Beach Boys, que adicionaram estilo, melodia, voz e belas histórias de praia. Se perguntarem a um amigo o nome do lugar onde o surf nasceu, de certeza que ele responderá Hawaii. Se lhe perguntarem o nome de uma banda de surf e de onde ela veio, quase de certeza que respondem Beach Boys e Califórnia. Os Beach Boys cantavam a Califórnia como uma espécie de paraíso dourado, em que os rapazes faziam surf o dia todo e belezas louras untavam os seus corpos com leite de coco, paraíso esse estilizado numa frase de Brian Wilson: «apanha uma onda e estarás sentado no topo do mundo!».
Como da vida e obra de Brian Wilson e «sus muchachos» muito já foi dito, cabe levar aos colegas das pranchas um pouco do que foi o som forte e ondulante dos primeiros agrupamentos de Surf Rock.
Dick Dale
O célebre «King of the Surf Guitar», inventou sozinho o dito estilo e não importa quem o copie, pois ele mantém-se o mais técnico e purista intérprete do género musical. Segundo os «experts», foi a herança musical trazida pelos pais da Europa de Leste que fez a diferença. Dick Dale nasceu Richard Monsour, em 1937, filho de pai libanês e de mãe polaca e, enquanto criança, foi exposto à música folk de ambas as culturas. Há quem o chame de «verdadeiro avô do Heavy Metal» e o facto é que ele continua a trabalhar com a Fender Company, levando ao limite a amplificação das mesmas, ajudando assim a desenvolver novo equipamento que possa fazer jus aos tons e sons que ele tem na sua cabeça.
The Bel-Airs
Um dos primeiros «combos» instrumentais. Este grupo da Califórnia do Sul teve o seu primeiro grande êxito com a música «Mister Moto». Utilizavam linhas de guitarras poderosas, mas incutiam uma influência mexicana, criando um protótipo de melodia para os anos vindouros.
The Lively Ones
Provenientes de Orange County, sul da Califórnia, retiraram o seu nome do calão de surfista para designar um determinado género de onda. A sua originalidade consistia em... não a ter! No espaço de 12 meses gravaram cinco álbuns com versões de Chuck Berry, Cole Porter, Dick Dale e outros.
The Surfaris
Grupo oriundo da região de Glendora, Califórnia, e muito lembrado pelo êxito de «Wipe Out». Gravaram perto de uma dúzia de álbuns e, como todas as outras bandas, desapareceram sem deixar rasto.
The Ventures
É sem dúvida a mais popular e - pasmem - ainda activa banda de surf! Tem a sua origem em Tacoma, Washington, e nasceu em 1959. Após terem gravado uma cassete de demonstração, tentaram a sua sorte com uma grande editora, que os rejeitou. Perante tal recusa, criam a Blue Horizon. A verdadeira pedra de toque que os catapulta para o sucesso vai aparecer um ano mais tarde, através do tema «Walk-Don't run». Este «Surf Rock Combo» teve perto de 40 álbuns nas tabelas e 17 hits na famosa «Top 40» americana, conquistando mais tarde os mercados japoneses e europeus.
"«O surf atrai "cultistas" dedicados, que constroem as suas vidas à volta deste desporto, mas... o golfe também faz isso. A distinção entre os dois é que ninguém pode atravessar a estrada junto à praia com o rádio do carro em alto som, a ouvir música de... golfe!»" — Jonathan Kistch

A Playlist: Surf Cast Vol. 1 é uma pequena compilação, com 23 músicas de Surf, na qual tentei evitar músicas demasiado conhecidas, fugir a faixas que podiam já estar disponíveis em coletâneas como Cowabunga - Surf Box, 100% Surf, ou a fantástica Surf Legends & Rumours e colocar aqui uns sons  nacionais::

Aki Aleong & The Nobles – Earthquake (US)
Astronauts – Movin (US)
Belairs – Squad Car (US)
Blazers – Beaver Patrol (US)
Centurions – Ishamatsu (US)
Chevell´s – Let There Be Surf (US)
Daniel Bacelar – Tema dos Gentlemen (PT)
Demónios Negros – Coimbra (PT)
Dick Dale & His Del-Tones – Surf Beat (US)
Fabulous Playboys – Cheater Stomp (US)
Fireball – Bulldogs (US)
Illusions – Jezabel (US)
Jim Waller & The Deltas – Intoxica (US)
Megatons – Voo do Besouro (BR)
Nevegans – Downey Surf (US)
Pharaos – Pintor (US)
Readymen – Disintegration (US)
Revels – Revellions (US)
Supertones – The Sweet Ride (US)
Surfaris – Surfari's Stomp (US)
Surfmen – Ghost Hop (US)
Tártaros – Tartária (PT)
Titãs – Tema para Titãs (PT)

Espero que gostem. Enjoy... BOM SURF !!!

(Como repararam pelo número 1 no título do artigo, a ideia original na revista era fazer uma segunda parte sobre o Surf Revival que surgiu nos anos 90 e 2000. Fica prometido: vamos regressar a este tema num próximo post!)

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