Os Sleep , herdeiros incontestáveis da liturgia sonora desenhada pelos Black Sabbath, possuem a capacidade singular de distorcer a perceção do tempo através de frequências graves.
No majestoso álbum "Sleep's Holy Mountain", a faixa Aquarian ergue-se como um hino à submersão. Trata-se de uma melodia que me assalta a memória invariavelmente quando o mar dita as suas leis. Aqueles longos e silenciados segundos em que nos encontramos retidos debaixo de água após o embate de uma onda, numa desafiante sessão de surf, encontram o seu espelho perfeito na cadência lenta, densa e implacável desta composição.
O abismo chama por nós em cada acorde.
A sua atmosfera opressiva e ritualística transporta-nos para mitologias bem mais obscuras e primordiais, evocando irremediavelmente a vastidão do terror cósmico concebido por H.P. Lovecraft.
As guitarras arrastadas e a narrativa lírica de um cativeiro subaquático assemelham-se a um chamamento d'Os Profundos, as insondáveis e ancestrais criaturas que aguardam no breu.
Foi, de resto, esta mesma e espessa neblina sonora que serviu de bússola e inspiração durante a elaboração de uma pequena crónica da minha autoria, integralmente dedicada a Zogt Marc, filho de Dagon, O Príncipe Herdeiro dos Profundos.
A música dos Sleep espelha em absoluto esse rito de descida à escuridão oceânica e a ânsia de regressar à superfície para tocar a luz solar, num ciclo perpétuo entre a asfixia mitológica e a frágil respiração terrena.
Trapped inside a world under leagues of ocean
The clergy arrives with the magic potion
I put my mouth into the cup of potion
Sip down the nectar and escape the ocean
Reaching for the sun, leave Atlantis, escape the sea
Fly into the sky, leave behind Atlantean key
Reaching for the sun, leave Atlantis, escape the sea
Fly into the sky, leave behind Atlantean key
Escape the sea with ascending motion
I touch the sun and return to ocean
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