Black Sabbath: "Symptom of the Universe", da Tempestade à Luz



"Woman, child of love's creation, come and step inside my dreams / In your eyes I see no sadness, you are all that loving means..." Estes versos da "Symptom of the Universe" no monumental álbum Sabotage de 1975, encerram em si talvez o maior e mais belo paradoxo de toda a carreira dos Black Sabbath. 

A faixa arranca como um autêntico rolo compressor, impulsionada por um dos riffs mais agressivos, rasgados e premonitórios que Tony Iommi alguma vez esculpiu — aquela que muitos consideram ser a verdadeira e inegável semente do thrash metal

Contudo, quando o caos atinge o seu pico e a asfixia parece inevitável, a tempestade subitamente quebra. O peso denso dissipa-se e somos deixados à deriva numa jam acústica, solta e quase primaveril, onde a voz de Ozzy cede o desespero a um romantismo luminoso. É essa metamorfose impensável, esse salto no escuro do abismo rítmico direto para a redenção dos céus de verão, que faz desta música uma odisseia poética sem paralelo.

Décadas mais tarde, os Sepultura olharam para este monumento e reclamaram-no com uma ferocidade ímpar. 

Na sua célebre versão, a banda brasileira não se limitou a prestar um tributo reverente; eles pegaram na agressividade latente do original e regaram-na a sangue e suor, injetando-lhe a pulsação tribal e a urgência visceral que os define. 

Compreenderam instintivamente que o código genético de toda a sua violência sonora já ali pulsava desde 1975. Ao desconstruírem a faixa, intensificando a sua faceta mais monstruosa e selvagem, os Sepultura provaram que a música dos Sabbath é um organismo imortal.

Ela continua a transformar-se, a sangrar e a encontrar novas formas de nos esmagar a cada geração que ousa enfrentá-la.

Comentários