O Rei Sardão: Entre as Margens do Douro na Lomba (GDM) e as Memórias de Sanguedo (SMF)

Trata-se do Projecto 671 d’ A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, gravado a 4 de Junho de 2013, em Areja, Gondomar. Ali, à beira do Douro, a D. Maria Ferreira partilha connosco o conto tradicional do Rei Sardão.

A história é uma novela de amor e mistério. Fala de uma criatura — meio homem, meio lagarto — que se esconde do mundo após um segredo ter sido violado. Mas é também a história da sua primitiva amada que, arrependida, o procura sem descanso até o encontrar e lhe cantar:

"Dorme, dorme meu bom dormidor;
Há sete anos perdido pelo teu amor;
Sete partidinhas do mundo corri;
Sete alpucatinhas de ferro rompi,
para te encontrar e estou aqui."

O que me impressiona profundamente nesta gravação é a crueza e a verdade da voz da D. Maria Ferreira. O seu sotaque, colado às Terras de Santa Maria da Feira, pela freguesia de Canedo, de onde vem todo o meu lado paterno, é para mim um gatilho emocional.

Ao ouvi-la, não estou apenas em Areja ou em Gondomar; sou transportado para o Terreiro da Boavista, na freguesia de Sanguedo. Aquela cadência vocal leva-me de volta às tardes solarengas da minha infância, passadas entre ovelhas e cabras, na companhia dos meus primos e tios.

É curioso como uma lenda gravada num ponto do Douro pode ressoar tão fortemente noutro lugar da minha geografia afetiva. A D. Maria Ferreira não está apenas a contar um conto; está a segurar um fio invisível que une a tradição oral de Gondomar à identidade da minha própria família.

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