Se em finais da década de oitenta eras um jovem adolescente e gostavas de punk, o mais certo era gostares de Toy Dolls, Sex Pistols, Ratos de Porão, Ramones, Misfits, Dead Kennedys e muitos outros. Se, porventura, como era o meu caso, andavas metido com surfistas, malta do skate ou das BMX, o mais certo era ouvires Bad Religion, Black Flag, NOFX, The Offspring, entre tantos outros.
Comigo marchava tudo. Era uma autêntica esponja ali entre os 13 e os 15 anos e consumia tudo o que viesse com o rótulo "punk".
Foi por essa altura que esbarrei no movimento “Straight Edge” ou “sXe”, que teve o seu início nos anos 80. Nele militavam os Minor Threat - uma das minhas bandas favoritas de Hardcore de sempre e eram rotulados como os miúdos que não bebiam, não se drogavam, não comiam carne, eram adeptos do anarquismo e/ou de um socialismo utópico e levavam um estilo de vida saudável.
Mais tarde vim a saber que o movimento “sXe” teve uma origem curiosa.
No início da década de oitenta, os Minor Threat de Ian MacKaye queriam que os miúdos menores de 21 anos (abaixo da idade legal para beber nos EUA) pudessem assistir aos seus concertos. Para contornar a lei, a banda combinou com os promotores e donos de bares que todos os espectadores sem idade para beber teriam um "X" marcado nas costas das mãos.
Assim, sempre que um deles se dirigisse ao balcão, os empregados saberiam que não podiam servir álcool. Se isto é 100% verdade ou não, não sei. Mas sei que, ainda hoje, adoro as músicas dos Minor Threat. Sempre que ouço a frase “…out of step with the world…” apetece-me desatar aos pulos, descer uma rampa ou surfar uma onda de dois metros.
Cheguei a fazer parte do movimento “sXe” quando era puto. Durou uns impressionantes seis meses. Fui parar a Penacova, ter com o Maarten, e uma mistura explosiva de jeropiga, cigarros “States” em Coimbra e o som do “Sementes do Pecado” acabaram com o meu sonho de uma vida totalmente pura e saudável. Ainda assim, consumi algumas bandas de “sXe” em Portugal. Entre elas, os X-Acto, que vi em dois concertos — num deles, se a memória não me atraiçoa, quando fizeram a primeira parte dos Offspring. Ainda hoje sei de cor a letra de “Metes-me Nojo”.
Curioso que, sempre tive a sorte de não me envolver com droga e depois que cheguei a idade adulta, especialmente depois que me casei e nasceu a minha primeira filha, adotei um estilo de vida saudável no qual, há quase 10 anos que não bebo álcool, não fumo e reduzi significamente o consumo de proteína animal.
Claro que nestas coisas há sempre fações. Havia os "sXe" que eram vegans, os que comiam carne, os que apenas não consumiam drogas, etc. E depois havia a reação dos outros punks que não eram "sXe". Nos concertos dos Renegados de Boliqueime, com o Frágil, o Óscar e a comandita do costume, costumavam dedicar uma música aos X-Acto, chamada Straight Edge que tem um verso que, se a memoria não me falta, reza o seguinte: “Não comem, não bebem, não fazem nada!!!”.
Por que razão me recordo disto tudo agora?
Porque estou em Washington e acabei de falar com uma pessoa muito simpática da Dischord Records. O meu objetivo com esse telefonema era apenas um: tentar conhecer a casa onde os pais do Ian MacKaye viveram e onde funcionou a mítica Dischord House.
Para quem não sabe, a capa do EP Salad Days (1985) dos Minor Threat é uma foto icónica que mostra os quatro membros da banda sentados na varanda dessa mesma casa em Arlington, Virgínia. Recentemente, o Ian MacKaye, o Lyle Preslar, o Brian Baker e o Jeff Nelson voltaram a reunir-se lá para recriar essa imagem clássica — a que o Brian Baker chamou de "Senior Threat" no Instagram, recriando as pernas cruzadas e as mãos dadas para a posteridade.
A famosa Dischord House já não é usada como quartel-general da editora, embora o Ian ainda tenha lá um escritório. Ao telefone, de forma extremamente educada e simpática, explicaram-me que ainda vivem familiares do Ian MacKaye naquela morada e pediram-me o favor de não passar por lá, para não importunar as pessoas e respeitar a sua privacidade.
Com muita pena minha, mas percebendo perfeitamente o lado deles, decidi não ir. Nem sequer passei pela rua. Ficam as memórias da juventude e a banda sonora a tocar nos auscultadores.


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