Capitão América: O Escudo, as Memórias e os Valores.




O Capitão América está, e sempre esteve, em primeiro lugar na minha lista de super-heróis. Guardo com imenso carinho os quadradinhos, ainda em brasileiro e da década de oitenta, deste Vingador. Lembro-me, como se fosse hoje, dos desenhos animados dos anos sessenta que passavam na RTP. Bem haja, Capitão, pelas horas de companhia que me deste quando era miúdo, em lanches regados a gasosa e Laranjina C, com muitos amendoins e bolinhos de marmelada à mistura. 

O que mais gostava nele era a noção de honra, verdade e sacrifício que colocava na sua conduta. Mais do que um super soldado, Steve Rogers era um homem comum que, de escudo em punho, libertou o mundo da tirania Nazi personificada pelo vil Caveira Vermelha.

Essa admiração materializou-se em algumas peças que tenho por casa. Aquele póster emoldurado que decora a parede, por exemplo, tem uma história especial por trás. Trata-se da capa do mítico número 100 da revista, assinada pelas lendas Joe Simon e Jack Kirby, que assinalou um momento histórico na banda desenhada. Depois de anos a partilhar publicações, o nosso herói ganhava finalmente o seu título a solo, o que mereceu a exclamação na capa: "Cap, in his own magazine at last!". A arte vibrante do Kirby, com o Capitão a liderar a carga ladeado pelo Pantera Negra, Thor e companhia, é um autêntico pedaço de história.

Ao lado, numa prateleira, repousa uma pequena parte da minha coleção: livros de banda desenhada antigos, figuras, a Marvel Chronicle e os Funko Pops. Mas, no meio de tudo isto, a peça com mais valor sentimental não é nenhum artigo de colecionador raro. 

São uns chinelinhos pequeninos em forma de bota, o número mais pequeno que existia na altura, que comprei para a Benedita calçar e dar os seus primeiros passos, e que depois passaram também para a Carolina. Ver esse símbolo nos pés das minhas filhas deu um significado ainda mais especial a este universo.

Como indefetível apoiante do Capitão América e de tudo o que ele representa no Universo Marvel, sempre anseiei pelas suas adaptações cinematográficas, lembrando-me bem da expectativa pelo seu regresso na altura da “Guerra Civil”. 

Até porque nunca desgostei da perspetiva de ele dar uma pesada carga de porrada no Homem de Ferro... Só não entendo de quem foi a brilhante ideia de não colocar a clássica máscara no Barão Zemo no cinema. Há malta que, definitivamente, não tem qualquer apreço pelo rigor "histórico" dos livros de banda desenhada.

É, aliás, um choque de realidades e um verdadeiro horror ter sido criado, desde criança, com a noção dos nossos amigos norte-americanos baseada nestes ideais e ter assistido, anos mais tarde, a uma presidência como a do Trump, que representa exatamente o oposto dos valores de igualdade, respeito e justiça que o Steve Rogers sempre defendeu e nos transmitiu. Joe Simon e Jack Kirby escreveram sobre lutar contra tiranos, não sobre aplaudi-los.

Para afastar essas nuvens e voltar à pureza original da personagem, nada melhor do que recordar a magia dos velhos tempos e trautear aquela canção intemporal: "When Captain America throws his mighty shield, All those who chose to oppose his shield must yield. If he’s led to a fight and a duel is due, Then the red and white and the blue’ll come through, When Captain America throws his mighty shield."



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