Arquivo Estereopositivo: Ghosts of Port Royal – O Galeão que Abalou o Underground

 


Há bandas que não pedem licença; entram-nos pelos ouvidos como um galeão pirata a abordar uma presa indefesa. Entre 2010 e 2014, os Ghosts of Port Royal foram esse combustível sonoro constante nas minhas crónicas. Hoje, revisitando estas notas, o entusiasmo é o mesmo de quem acaba de beber um trago de rum puro.

Tudo começou em fevereiro de 2010, na mítica Louie Louie, no Porto. A apresentação do EP revelava uma secção rítmica de luxo: o Guerra (baixo, ex-Motornoise) e o João Filipe (bateria, de projetos como Eskizofrénicos e Sektor 304). Juntos, pareciam os motores rítmicos de uns Black Sabbath ou Hawkwind. Com a guitarra do Ricardo Cunha (Speedtrack) e a voz do Augusto Lado (Here B Dragons), o que ouvimos foi um turbilhão de Rock & Roll direto ao Inferno.

Lembro-me perfeitamente dessa tarde na Rua do Almada: a sala era pequena para tanta gente. No meio de um nevoeiro de fumo, fomos hipnotizados. Quem ali esteve tornou-se zombie. Espíritos rebeldes que, agrilhoados a riffs e gritos, ansiavam pela próxima dose. Tenho a certeza de que o Johnny Thunders, onde quer que esteja, sorriu ao ouvir aquilo.

Curiosamente, durante os séculos XVI e XVII, os piratas capturavam músicos para tocar durante as batalhas e os serões de álcool. Era essa a energia e a herança que os Ghosts transmitiam em palco: uma raiva solta, como se estivessem finalmente livres para detonar. Passaram pelo Contagiarte, pelo Miami Club em Olival, e por tantas outras salas onde o feitiço deles se impunha.

O ponto alto dessa jornada chegou em 2014 com o lançamento do primeiro álbum, o apropriadamente intitulado "1692". Este disco ainda contou com o João Filipe na bateria, captando a essência da formação original. Pouco depois, em 2015, o grupo recrutou Francisco Beirão (vindo de projetos como Touro e Retimbrar) para assumir as baquetas.

Para quem achava que os piratas tinham sossegado, o galeão voltou à carga em 2019 com o lançamento de "Hostis Humani Generis". O título (termo latino para "inimigos da humanidade") diz tudo sobre o rumo que continuam a traçar: um rock visceral, ruidoso e que não faz prisioneiros.

A tripulação continua viva e a disparar, como prova a sua página oficial. O som... esse continua a percorrer-me as veias como combustível flamejante.

Podes ouvir o álbum aqui: 🔗 Hostis Humani Generis no Bandcamp

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