Arquivo Estereopositivo: Mão Morta Revisitada – A Devoção e a Rainha do Rock & Crawl



Em 1995, os Mão Morta lançaram o álbum Mão Morta Revisitada, pegando no seu passado para o reinterpretar com uma nova roupagem. Este post é exatamente a mesma coisa. Serve para condensar e revisitar as dezenas de artigos que lhes dediquei ao longo de quase duas décadas de vivência do Estereopositivo.

Entre artigos perdidos, referências soltas e diretos, já contei mais de trinta publicações dedicadas à banda de Braga neste espaço. Não é segredo para ninguém: a minha dedicação a este grupo é total e pública, acompanhando-os ininterruptamente desde 1991/1992.

A minha casa alberga hoje um autêntico arquivo histórico da banda. Tenho a discografia quase completa — entre vinis, CDs, cassetes, VHS, DVDs, livros e revistas, conto mais de 60 objetos. Guardo raridades como a mítica K7 Mão Morta ao Vivo no Luís Amstrondo ou o raríssimo 12” dos Cães de Crómio, saído na altura do Vénus em Chamas. E, no entanto, o colecionista em mim continua a procurar a fatia que falta: nunca consegui deitar a mão a uma cópia do vinil de 8” de Desmaia, Irmã, Desmaia / Desmaia, Irmã, Desmaia. A caça continua.


Olhando para trás, percebo o porquê desta admiração inabalável. O meu álbum preferido de sempre é, indiscutivelmente, o O.D., Rainha do Rock & Crawl (1991). Foi o meu primeiro contacto a sério com a banda. Estávamos no início da década de noventa e meia dúzia de miúdos viviam, semanalmente, encafuados entre quatro paredes. A única forma de soltar a pressão eram os fins de semana em festins musicais de exaustão e paixão. É fascinante perceber como a memória funciona: muitas vezes não me recordo de datas recentes ou de nomes de pessoas com quem me cruzei ontem, mas sou capaz de recitar, de fio a pavio, letras que ouvia repetidamente aos 13, 14 e 15 anos.

Ainda hoje as palavras do Adolfo ressoam cá dentro e fazem-nos querer saltar. Como esquecer o grito geracional de Charles Manson? "Na Primavera eu não estava em Praga / No 25 de Abril estava em Braga / Demasiado entretido a crescer / Para dar conta do que estava a acontecer (...) Parem o relógio! / Vamos todos para a revolução / Fazer a festa de cocktail na mão!" Ou a genialidade literária declamada em O Divino Marquês, inspirada em Luiz Pacheco, onde um velho marquês ficava hospedado em casa de uma "burguesa beata e alcoviteira, mas para quem um Marquês, por mal afamado que fosse, oh oh... era sempre um Marquês..."?

Mas ouvir Mão Morta no gira-discos é apenas metade da experiência. Assistir a um concerto deles nunca é apenas "mais um concerto", por mais que seja a enésima vez. Acompanho as autênticas descargas de energia da banda desde esses idos anos 90 e mantenho a maior reverência e respeito pelo que fazem em palco. Para mim, são e serão para sempre o referencial absoluto da música alternativa cantada em português.

Um dos episódios mais marcantes desta jornada aconteceu quando o palco desceu literalmente às traseiras da minha casa, em Ovar. Mais do que a hipótese de os ver a jogar no meu quintal, o grande momento dessa noite foi o encontro nos bastidores. Tive o imenso privilégio de mostrar ao Adolfo uma autêntica pérola do nosso underground local: a versão cravada a chumbo que a banda vareira, onde os meus irmão tocavam bateria e baixo, AfterHate fez do clássico Cão da Morte. Para quem não se lembra, os AfterHate debitavam uma mistura letal de grind, thrash e death metal, e chegaram a ser um caso muito sério na cena nacional. Infelizmente, o único registo que sobrevive dessa cover insana é uma gravação em vídeo com pouca qualidade. Fica aqui a promessa cravada no arquivo: um dia farei todos os possíveis para digitalizar esse registo e colocá-lo online para o mundo ouvir.



Porque ouvir Mão Morta é, na sua essência, um cocktail de sensações que nos consome. Num texto que escrevi algures em 2009, tentei mapear esse sentimento usando as próprias palavras deles:
Ouvir Mão Morta faz-nos “…sentir o vento frio na cara…”, ou ficar “…horas a olhar para uma mancha na parede…" como “… anjos de pureza evadidos dos lazeres…”. Pode ser um cenário onde “… vinha um homem; Encoberto pelas sombras da noite…”, e onde “… o silêncio acompanhava o olhar vazio; A dor”. Às vezes sentimos que “…não há nada a escolher” e só nos falta ir “…para a revolução Fazer a festa de cocktail na mão” mas, "Tem calma irmão, Que a morte não precisa ser assim...". Será que "Sopra forte o vento na fogueira que arde em mim"? Mas e se “…O desejo persistir…” e isso “…Faz de mim um escravo”? A resposta desagua sempre na mesma urgência, cruzando os neons de Lisboa, onde "Os paralelos asfixiam a alma; Solidão, saudade" ao som de um 1.º de Novembro chuvoso, até ao grito final de colapso: "ESTOU FARTO DE MIM, ESTOU FARTO DE MIM!".

E, no meio desta viagem sufocante, há sempre o regresso às origens. Relembro frequentemente Abandonada, na sua versão original da K7 editada pela Malucos da Pátria em 1987 (infinitamente superior, a meu ver, à regravação para os prémios Blitz em 1995). Aquela poesia urbana de uma cidade que apodrece na calada da noite, onde "o amor, sublimada filigrana, submergido pelo lodo torna-se disforme", define na perfeição a essência inquebrável da banda.

Os Mão Morta não são apenas uma banda sonora. Foram, e são, o espelho de uma lado da nossa sociedade, preso em angústias e revolta. E eu tenciono continuar na primeira fila desta plateia até ao fim.

Siga!


Nota: Para comodidade do leitor, no post que fiz em 2009 - e que aqui foi referido - citei letras das seguintes canções dos Mão Morta: 

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