Este post vai ser um pouco mais complicado, mas absolutamente necessário. Ao longo dos anos, escrevi mais de uma dezena de publicações aqui no Estereopositivo sobre o Conjunto Oliveira Muge. Hoje, sinto que chegou o momento de meter a casa em ordem.
Vou reescrever, reorganizar e dar uma nova vida a esses textos, consolidando a história de uma das bandas marcantes e subestimada do universo musical português.
A ilustração do post podia ser uma das centenas de fotos que tenho do Conjunto de Oliveira Muge e que estão publicadas nos trabalhos que fiz sobre eles, nas redes sociais que criei e em diversas publicações. Contudo, tinha de colocar mais uma excelente ilustração do Maarten Ryon que dá uma nova visão , as muitas dimensões do Conjunto de Oliveira Muge.
Para mim, o Conjunto de Oliveira Muge começou por ser, há muitos anos, o conjunto do Sr. José Muge (do Mundo da Canção) e do Sr. Policarpo Costa (do Restaurante Progresso e marido da minha querida professora da primária, a D. Guida Costa). Mas a sua dimensão vai muito para além das fronteiras de Ovar. Eles são um pedaço vivo da nossa história coletiva.
Quando falamos do Conjunto Oliveira Muge, é impossível não falar da música Mãe. Escrita por Policarpo Costa em 1962, logo após a sua chegada a Vila Pery (Moçambique), esta canção nasceu de um sentimento simples e universal: um miúdo longe de casa com saudades da mãe.
No entanto, o impacto desta melodia foi estrondoso:
Hino de uma Geração: Tornou-se a voz de milhares de jovens expedidos para a Guerra Colonial que não sabiam se voltariam a casa.
Fenómeno de Vendas: Chegou a superar em vendas gigantes como os Beatles, Adamo e Amália Rodrigues em Portugal.
Resistência e Censura: O seu peso emocional e a sua associação à saudade dos soldados tornaram-na incómoda para o regime de Salazar, sofrendo boicotes nas rádios e televisão da Metrópole.
Inspiração no Cinema: A sua força emocional intemporal levou realizadores como Miguel Gomes a utilizá-la em filmes premiados como Aquele Querido Mês de Agosto e Tabu
Nunca entendi por que razão o amor que milhares de pessoas sentiam por este conjunto, espalhadas pelo mundo inteiro, não se traduzia num reconhecimento público condigno. Foi essa inquietação que me levou a arregaçar as mangas.
Ao longo da minha vida, dediquei-me a recolher dados, entrevistar os membros vivos e documentar a epopeia destes músicos. Este trabalho materializou-se em vários marcos importantes:
1. A Exposição de Homenagem (2012)
Cinquenta anos após a criação da música Mãe, conseguimos realizar uma justa homenagem ao conjunto, com o apoio da Junta de Freguesia de Ovar. Esta exposição teve uma carga emocional imensa, pois realizou-se já após o falecimento do Sr. Policarpo, tornando-se num tributo fundamental à sua memória e ao seu génio criativo.
2. O Roteiro de Publicações
Para quem quiser acompanhar a fundo a verdadeira história do Conjunto Oliveira Muge (e outras reflexões culturais), deixo aqui o mapa do trabalho que tenho vindo a publicar nos últimos anos, especialmente através da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia de Ovar:
2012 | Boletim Ovar Sempre (Junta de Freguesia de Ovar) Participação na pesquisa e redação da revista, com a missão de apurar dados, estruturar fontes e construir os textos históricos sobre a comunidade e a banda.
2020 | A História do Conjunto Oliveira Muge: Portugal, Ovar e Música (Revista Dunas Nº 20) A evolução da cena musical de Ovar nas décadas de 50 e 60, desde as primeiras formações de José de Oliveira Muge até à entrada decisiva do jovem vocalista Policarpo Costa.
2021 | A História do Conjunto Oliveira Muge: África, Moçambique, Vila Pery e Música (Revista Dunas Nº 21) A notável jornada musical do grupo em África nos anos 60, abordando o sucesso, os desafios e o impacto cultural além-fronteiras.
2022 | A Verdadeira História da "Mãe" no seu 60º Aniversário (1962 - 2022) (Revista Dunas Nº 22) O impacto cultural da canção, a sua utilização no cinema contemporâneo e a sua relevância para os soldados portugueses na guerra colonial.
2023 | Conjunto Oliveira Muge - A Afirmação, o Ocaso e o Regresso (Revista Dunas Nº 23) A trajetória completa: da afirmação mediática na Rodésia e Moçambique até ao ocaso e eventual regresso a Ovar.

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