Os Primeiros Uivos (1985-1987)
A história do grupo começou em Novembro de 1985, na cidade do Porto, inseridos inicialmente no movimento rockabilly/psychobilly, sobre o nome "A Moral dos Idiotas", mas rapidamente mudaram para um nome bem mais poético e sombrio: "Os Cães, A Morte e o Desejo".
A mudança definitiva para o nome Cães Vadios deu-se em Setembro de 1986, depois dos primeiros concertos no Solar da Cruz Vermelha, em Massarelos, e já com uma nova formação: Carlos Moura passou para a bateria e Rodrigo Siza Vieira assumiu a voz.
No início de 1987, a Ama Romanta lançou o primeiro single da banda, produzido por Nuno Rebelo, com os temas "Cães Vadios", "Bêbado" e "Marcianos". Guardei durante décadas esse mítico 7'', com a inconfundível capa do cão no caixote do lixo e do cão pendurado a sangrar, até que o vil metal chamou mais alto e acabei por me desfazer dele.
A Viragem para o Hardcore e os Anos 90
Na viragem da década, a banda endureceu o som. Viraram-se de cabeça para o hardcore (aquilo a que chamavam NECROCORE-SEXOCORE-LOVECORE). Nesta fase, militavam David Dano (voz), o ex-Cagalhões Óscar Q. (baixo), Guilherme Lucas (guitarra) e Carlos Moura (bateria). Foi com eles que gravaram a mítica cassete Bem Fundo em 1991, editada em França pela indie "Eat Rekords" e distribuída na Alemanha com o fanzine "Urbem". Acredito que, algures nas minhas caixas, ainda tenho comigo uma cópia desta demo.
Além disso, o tema "Rei Dor" fez parte da K7 "T-Secret Sessions" do fanzine "Peresgotika", gravado em 4 pistas na sala de ensaios da banda, e em 1993, já com Zé Borges (ex-Alucina Eugénio) na bateria, gravaram as faixas "Sou Único" e "Mental City", que integraram coletâneas como a "Portugal Rebelde Vol.1" e a da revista "Ritual Rock".
O Suor dos Concertos e a Relação Pessoal
A minha verdadeira ligação aos Cães Vadios fez-se ao vivo pois recordo, como se fosse ontem, a energia caótica dos concertos.
Lembro-me deles no Labirinto, onde tocaram atrás de uma rede de galinheiro que separava a banda do público, com um cartaz a dizer "Não alimentem os animais". Lembro-me do Palácio de Cristal, onde assinaram uma versão rasgada do "Anarchy in the UK" juntamente com os Cosmic City Blues e os No Nose Reduction.
Em Outubro de 1992, fizeram a primeira parte dos três concertos que os Young Gods deram em Portugal. E, claro, lembro-me de os ver em Ovar, a fazerem a primeira parte de uma banda de Death Metal da qual já nem recordo o nome. A formação dessa noite era exatamente a que ficou eternizada nesta fotografia:
Acompanhei sempre de perto a carreira do Óscar nas diversas bandas por onde passou depois, e foi graças a ele que consegui (e ainda guardo religiosamente) uma K7 com a compilação de todas as músicas dos Cães Vadios. Também fui acompanhando a carreira do David Dano (o nosso David Pontes), que construiu um percurso de enorme sucesso e integridade no jornalismo — passando pela Lusa, Jornal de Notícias e Público — sempre como um acérrimo defensor do Norte.
A título de curiosidade: as minhas músicas preferidas sempre foram a "Boca de Fogo", "Cosmos do Amor" e "O Homem que Amou". Numa conversa que tive com o David, ele garantiu-me que as letras eram sobre paixão e amor profundo. Bem... sempre achei que eram pura e simplesmente sobre sexo. Mas quem sou eu para contrariar o autor!
O Último Uivo (O Regresso à Cave 45)
Para fechar este ciclo perfeito, não podia deixar de falar da breve aparição que fizeram 22 anos depois. Estive presente nesse último concerto de reunião na Cave 45, no Porto, e guardo com carinho tanto o cartaz espetacular a anunciar o fecho do "Rock and Roll Circus", como a memória daquela noite épica e suada, imersa em luzes verdes e néon, onde provaram que a atitude não envelhece.
Os Cães Vadios podem não ter deixado o tão desejado álbum gravado, mas deixaram uma marca indelével na música underground do Porto e nas memórias de quem, como eu, andou por lá a suar a camisola.
.jpg)


.jpg)
.jpg)
Comentários