Arquivo Estereopositivo: Ratos de Porão – A Banda Sonora do Colapso (com o apocalipse preparado para Ovar!)
Chegou a altura de fazer justiça aos Ratos de Porão na arrumação da nossa casa. Esta é daquelas bandas que ocupava dezenas de publicações antigas no blogue. Havia de tudo: desabafos, letras esmiuçadas, vídeos perdidos e bilhetes rasgados.
Sou um admirador confesso dos Ratos desde que tenho 13 ou 14 anos. Foi uma "doença" que passei aos meus dois irmãos e que, ainda hoje, os afeta. Se juntarmos a coleção dos três, devemos ter bem mais de uma ou duas dezenas de concertos no currículo, além de pilhas de CDs, t-shirts, livros e vídeos a cobrir as mais diversas formações da banda.
Para mim, um dos concertos da minha vida ocorreu a 14 de outubro de 1995, às 17h00, no Parque de Exposições de Vila Nova de Gaia com o bônus de ter podido ouvir os Death, com o Chuck Schuldiner, pouco anos antes do seu desaparecimento.
Com tanta conversa sobre o punk brasileiro, não aguentei e fui desenterrar os meus CDs. A verdade é que a música deles sempre serviu de espelho para a realidade, por mais dura que fosse.
Recordo-me de um post que escrevi em 2011, quando ouvia na rádio o governo japonês a alertar a população de Fukushima para se fechar em casa e "calafetar portas e janelas" devido ao acidente nuclear.
Só houve um sítio para onde me virar: o álbum de estreia de 1984, Crucificados pelo Sistema. "Poluição Atómica", com mais de 25 anos na altura, parecia ter sido escrita naquele exato minuto: "Sujeira no ar / Não consigo mais respirar / Falta oxigénio / (...) Não há solução pra essa poluição atómica!"
Meses depois, quando Portugal começou a equacionar a entrada do Fundo Monetário Internacional (a infame Troika), a minha reação foi instintiva. Voltei ao mesmo disco e meti a tocar a FMI: "Quando eles resolverem nos cobrar / Nosso território teremos que doar / Nossa dívida externa não há jeito de pagar... Somos todos uns vendidos." .
Aids, Pop, Repressão e a Mudança de Vida, especialmente na gravação ao vivo de 1992, é um dos grandes hinos que ainda hoje não me sai da cabeça e reflete perfeitamente as angústias de uma geração que cresceu a ver o mundo a enlouquecer:
"Sexo, drogas, rock'n roll Quem está nascendo agora isso não vai conhecer Temos que nos proteger Os prazeres dessa vida já viraram maldição Aids, Pop, Repressão O que é que eu fiz para merecer isso?"
Para quem quiser ver a pujança deles na estrada nessa fase, deixo aqui este tesouro que encontrei: a
Mas desengane-se quem pensa que o caos lírico se traduz, hoje em dia, numa vida de excessos. Uma das coisas mais fascinantes na evolução dos Ratos de Porão é o contraste com o passado. Se antigamente cantavam que eram "a turma que mais fuma maconha", hoje a realidade
A atitude punk nunca desapareceu, mas hoje em dia, a banda tem membros vegan, promovem um estilo de vida saudável e não incentivam o consumo de álcool e drogas (como a imagem que recuperei do arquivo tão bem ilustra). O documentário Guidable: A Verdadeira História do Ratos de Porão mostra perfeitamente essa transição da autodestruição para a sobrevivência através da música.
E adivinhem? A sobrevivência traz-nos de volta à estrada. No próximo dia 31 de julho, os Ratos aterram em Válega em Ovar!
Se acham que o punk está morto, apareçam lá para ver se a casa não vem abaixo.
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