Desde a criação deste espaço, escrevi mais de duas dezenas de publicações sobre eles e estava na hora de reunir esses fragmentos dispersos e fazer-lhes a homenagem devida num único manifesto.
O Adeus ao Pregador (2009) A história deste arquivo começa com uma despedida. No dia 4 de fevereiro de 2009, o mundo do rock ficou irremediavelmente mais pobre com a morte de Lux Interior (nascido Erick Purkhiser).
Juntamente com a sua mulher, Poison Ivy, ele não foi apenas o líder de uma banda; foi o arquiteto do psychobilly com uma estética que misturava a Nova Iorque do CBGB, os filmes de série B de meia-noite, e um rockabilly perigoso, Lux era um frontman destemido que transformava qualquer palco num altar de paixão e loucura.
A banda sonora de uma vida ao longo dos anos, fui dissecando aqui no blogue as músicas que nos ensinaram a amar o lado negro do rock. Para mim, uma das funções mais importantes da música é ser condutora para outras dimensões, e os Cramps fizeram isso na perfeição:
"Strychnine" (1979): Foi através da sua versão crampeada em Songs the Lord Taught Us que ouvi falar dos The Sonics pela primeira vez.
"She Said" (1983): Uma versão de Smell of Female que não só supera a original como nos empurra para a obra do alucinante Hasil Adkins.
"Goo Goo Muck" (1984): Porque todos nós já fomos "a teenage tiger waiting for a feast" e não apenas a apenas a pequena Wednesday que quer dançar.
"Surfin' Bird" (1983): Um hino absoluto que ganhou contornos hilariantes quando, em 2008, o Peter Griffin do Family Guy ficou obcecado por ela, atirando a música para os tops britânicos e do iTunes.
"You've Got Good Taste" (1983): A dedicatória eterna a todos os portadores de malas Gucci.
"Call of the Wighat" (1983): Onde se prova que é possível criar um transe hipnótico assente num único acorde infindável.
Graças aos The Crabs (2010 - 2011), a memória deles manteve-se viva não só nos discos, mas nos palcos da cidade do Porto. Em fevereiro de 2010, e novamente em 2011, o Armazém do Chá acolheu os The Crabs — um supergrupo de tributo formado por Júlio Verme, André Cruz, Nuno Silva e Ivo Guimarães.
Recordo-me de ir no autocarro 902, a pensar nestes concertos. Nessas noites, pedia aos deuses do submundo para ouvir a "The Most Exalted Potentate Of Love" e a "Bikini Girls with Machine Gun". E as minhas preces foram sempre ouvidas. Foram justas e suadas homenagens feitas pelos "prostitutos" do rock.
Multiplicam-se, todos os anos, sessões de homenagem aos Cramps pois, a banda desapareceu, mas o vício que ela incutiu em melômanos por este mundo fora, não desapareceu.
Em 2025, deitei as mãos ao livro Journey to the Center of the Cramps. Esta obra recordou-me o porquê de gostar dos Cramps deste miúdo. É o registo definitivo de um fenómeno de rock n' roll que durou 35 anos, detalhando as influências, o elenco de personagens loucas que os rodeavam e o legado inultrapassável daquela que foi uma das parcerias mais incríveis da história da música: Lux e Ivy.
A viagem continua.
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