Arquivo Estereopositivo: Baudelaire, Verlaine, Gainsbourg e os Gauloises Brancos

 


Há uma música que já coloquei aqui não uma, não duas, mas três vezes ao longo dos anos. 
A canção é "Je suis venu te dire que je m'en vais", do eterno Serge Gainsbourg. E a verdade é que nunca me canso dela.

Antes de falarmos a sério sobre a música, tenho de fazer uma confissão. Houve uma fase da minha vida em que tentei ativamente imitar o charme decadente do Serge. 

A tática envolvia encostar-me a um canto, fumar Gitanes sem filtro, segurar um copo de uísque e lançar um olhar profundo e melancólico para a pista de dança sempre que via alguma rapariga de quem gostava. 

Queria encarnar aquela mística de poeta maldito francês. Olhando para trás, se calhar parecia apenas alguém a precisar de óculos, mas na minha cabeça, a banda sonora a tocar em fundo era genial.

Brincadeiras à parte, Serge Gainsbourg é, sem margem para dúvidas, um dos meus cantores e compositores favoritos de sempre. A sua obra é absolutamente imensa. 

Falamos do homem que nos deu faixas como "Elisa" e que construiu aquela que é, para mim, uma das maiores obras-primas da música europeia: o álbum conceptual Histoire de Melody Nelson (1971), com os seus arranjos de cordas épicos e linhas de baixo inesquecíveis. 

Isto para não falar, claro, das parcerias estratosféricas e escandalosas com ícones como Brigitte Bardot e Jane Birkin. Para atestar esta minha devoção, chegou a morar em minha casa, durante largos anos, na prateleira com lugar de destaque, uma box set com 7 ou 8 CDs que compilava os seus grandes êxitos.

A sua genialidade boémia e capacidade de transgressão não se ficavam apenas pelos discos. Aqui por Bruxelas, a cidade ainda guarda a memória de uma noite verdadeiramente insana. 

Recuemos a 5 de janeiro de 1980. O Serge, que não pisava palcos belgas há quase vinte anos, vinha da Jamaica, em plena efervescência da sua fase reggae. O entusiasmo na capital foi de tal ordem que a bilheteira do Cirque Royal simplesmente rebentou, obrigando a organização a marcar dois concertos seguidos na mesma noite. 

No meio do frio gélido do inverno belga, o Serge de Gauloise na mão pôs uma sala inteira a suar ao ritmo das Caraíbas. Esta capacidade de incendiar multidões contrastava — ou talvez complementasse na perfeição — a sua devoção solitária pela literatura clássica francesa. 

Muito antes de ser um ícone pop e reggae, já em 1959, na faixa L'Anthracite, ele mostrava ao que vinha com estes versos:

Mais prends garde ma petite,
À mon humeur anthracite,
J'arracherai animal,
Le cri et les fleurs du mal

Gosto imenso desta música. A letra é uma referência brilhante ao poema de Charles Baudelaire, brincando de forma sublime com o contraste entre a beleza divinal e o amor negro de Afrodite.

É exatamente este fascínio pela poesia clássica que nos leva de volta à música que me faz sempre regressar a ele e que justificou as tais três publicações. 

Em "Je suis venu te dire que je m'en vais" (lançada em 1973), a melancolia é palpável. O Serge teve a audácia de ir buscar versos ao famoso poema "Chanson d'automne" de Paul Verlaine (como "tes sanglots longs" e "au vent mauvais") para compor a canção de despedida definitiva.

Tinha mesmo de voltar a partilhar esta letra convosco:

Je suis venu te dir'que je m'en vais
et tes larmes n'y pourront rien changer
comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
je suis venu te dir'que je m'en vais

tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
des adieux à jamais
oui je suis au regret
d'te dir'que je m'en vais
oui je t'aimais, oui, mais- je suis venu te dir'que je m'en vais

tes sanglots longs n'y pourront rien changer
comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
je suis venu d'te dir'que je m'en vais

tu t'souviens des jours heureux et tu pleures
tu sanglotes, tu gémis à présent qu'a sonné l'heure
des adieux à jamais
oui je suis au regret
d'te dir'que je m'en vais
car tu m'en as trop fait- je suis venu te dir'que je m'en vais

et tes larmes n'y pourront rien changer
comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
tu t'souviens des jours anciens et tu pleures
tu suffoques, tu blémis à présent qu'a sonné l'heure
des adieux à jamais
oui je suis au regret
d'te dir'que je m'en vais
oui je t'aimais, oui, mais- je suis venu te dir'que je m'en vais

tes sanglots longs n'y pourront rien changer
comm'dit si bien Verlaine "au vent mauvais"
je suis venu d'te dir'que je m'en vais

tu t'souviens des jours heureux et tu pleures
tu sanglotes, tu gémis à présent qu'a sonné l'heure
des adieux à jamais
oui je suis au regret
d'te dir'que je m'en vais
car tu m'en as trop fait

Peguem num copo de uísque, se puderem fumem um Gitanes sem filtro e deixem-se levar por este génio francês.




Não eram estes que fumava, mas não encontrei a imagem que queria.

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