Arquivo Estereopositivo: Joy Division, Northern Soul e a Eternidade de Dead Souls




Há bandas que transcendem a simples catalogação musical para se entranharem de forma definitiva na nossa biografia, acompanhando-nos como uma banda sonora vitalícia. Os Joy Division são, incontornavelmente, uma dessas presenças assíduas pois, ainda hoje conservo no carro, em formato digital, a box set "Heart and Soul", um refúgio sonoro sempre à mão que complementa a memória física das várias t-shirts com as capas dos álbuns que fui vestindo ao longo dos anos. 

Esta devoção é de tal ordem que compreendo e subscrevo perfeitamente a postura do Primeiro-Ministro australiano que, em novembro de 2025, se viu debaixo de fogo mediático e foi duramente criticado pela oposição apenas por desembarcar de um voo envergando uma t-shirt da banda. 

Tal como ele, assumo-o sem reservas: I Am a Believer In Joy Division, Fcking Hallelujah*. Aliás, a omnipresença deste som na minha rotina é tão natural que, numa das últimas entrevistas que concedi enquanto primeiro secretário executivo intermunicipal, quando me perguntaram, de rompante, que música me soava na cabeça naquele preciso momento, a resposta saiu-me de forma instintiva e sem qualquer margem para hesitações: "Dead Souls".

E é precisamente "Dead Souls" que serve frequentemente de gatilho de excelência para revisitar este universo melancólico e genial. Lançada em 1980, como o velado lado B do single de edição limitada 'Licht und Blindheit' (Luz e Cegueira), esta é uma melodia à qual recorro com bastante regularidade. Trata-se de uma daquelas canções inexplicáveis, densas e hipnóticas, que emerge quase autonomamente sempre que alguma memória mais longínqua do passado decide assombrar o presente. 

Não me perguntem o porquê destas intrincadas mecânicas da mente, apenas sei que há músicas que funcionam exatamente assim, ecoando versos que nos puxam inevitavelmente para trás e nos obrigam a confrontar fantasmas: "Someone take these dreams away; That point me to another day; A duel of personalities; That stretch all true realities; And keep calling me; They keep calling me; Keep on calling me... Where figures from the past stand tall; And mocking voices ring the hall; Imperialistic house of prayer; Conquistadors who took their share; And keep calling me... Calling me, calling me, calling me, calling me".

Alias, este set de fotografias feito pelo fotografo Kevin Cummings - em que uma ilustra o post - é sintomático disto. Joy Division, mais do que um banda de musica, é um sentimento, uma forma de pensar o Reino Unido nos anos oitenta que, para que estas fotos resultem, nem sequer seria precisam que a banda apareça.

Mas desengane-se quem julga que a sonoridade da banda de Manchester se esgotava exclusivamente nesta densidade soturna, havendo muito espaço para ritmos que escondiam outras influências vitais nas entrelinhas. "Interzone", por exemplo, é a prova cabal da formidável assimilação do fenómeno Northern Soul por parte do grupo. 

Aquela batida frenética e propulsiva, típica das noites suadas e intermináveis de dança nos clubes operários do norte de Inglaterra nos anos 70, foi subvertida e adaptada à urgência do pós-punk, criando um contraste fascinante entre a energia puramente física da música e a escuridão lírica da mensagem. 

Esta complexidade e profundidade cativaram-me desde muito cedo. Lembro-me perfeitamente de estar no 12.º ano, no CIC, com os meus dezassete anos, quando a professora de inglês nos lançou o desafio de transcrevermos e apresentarmos um poema na sua língua original. A minha escolha foi óbvia, imediata e sem contemplações: levei para a sala de aula os versos rasgados de "Love Will Tear Us Apart" e tentei, de forma inocente, explicar o seu significado.

Essa exploração literária da banda acabaria por ganhar novos contornos mais tarde, nos meus primeiros tempos de universidade, quando me cruzei com o livro "Ex-Crítica Pop" de Miguel Esteves Cardoso.

Devorei, com uma avidez impressionante, todos os brilhantes artigos que o MEC escreveu sobre os Joy Division, encontrando finalmente naquelas páginas as palavras exatas para descrever a genialidade de que eu já suspeitava. 

Ao longo dos anos, essa admiração passou também, de forma muito natural, para a tela do cinema. Adorei o filme "Control", do Anton Corbijn, que tive o raro privilégio de ver na Casa das Artes, no Porto, ali pela década de 2000. 

No entanto, confesso que é em "24 Hour Party People" que reside a frase mais emblemática e certeira que alguma vez ouvi sobre o vocalista da banda. Naquela cena inesquecível, um acutilante Tony Wilson – interpretado pelo inigualável Steve Coogan – debruça-se sobre o caixão de Ian Curtis e despede-se, sentenciando para a posteridade que ali ia "o equivalente musical a Che Guevara"

E, no fundo, é exatamente isso que a banda continua a representar na vida de quem a ouve: uma revolução permanente que teima em não perder a sua força.


Nota: A rubrica do Arquivo Estereopositivo serve precisamente para recuperar posts antigos do blogue — em alguns casos, textos escritos há largos anos. O objetivo é dar-lhes uma nova roupagem e formatação, garantindo que a essência e o conteúdo original se mantêm, mais ou menos, intactos, sendo que o texto acima é uma dessas viagens no tempo.

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