Arquivo Estereopositivo: A Mitologia Elétrica de Dave Wyndorf e o Rugido dos Monster Magnet




A relação deste blogue com o universo de Wyndorf sedimentou-se ao longo dos anos, atravessando diversas fases da sua discografia. Em momentos de introspeção sombria, fomos visitados pela crueza de Take It  do álbum God Says No, onde a vulnerabilidade se revela numa narrativa de sombras e cumplicidade.

Por outro lado, recordo uma  manha em que a quietude do repouso se tornou uma prisão intolerável, um hiato desnecessário perante a urgência do mundo que lá fora pulsa. 

Recordo, com uma nitidez quase tátil, aquele dezembro de 2008. O sol de inverno, cortante e límpido, invadia o quarto do meu apartmanto na Praia de Salgueiros em Gaia, enquanto o vento leste soprava com a autoridade de quem limpa o horizonte para novos começos e para uma sessão de Surf à minha espera.

A sensação era de uma vitalidade indómita, um vigor que evocava as palavras de Devendra Banhart em Little Yellow Spider, questionando a natureza daquela luz matinal. A resposta, porém, não residia na delicadeza folk, mas sim na força telúrica do signo de Touro, liberto de uma convalescença que teimava em perdurar.

Para acompanhar tamanha efervescência anímica, a escolha da banda sonora não permitia hesitações. Os Monster Magnet, com a sua liturgia de fogo e psicadelismo, surgiram como a única opção viável. Ao ouvir Crop Circle do álbum Powertrip, somos transportados para uma dimensão onde Dave Wyndorf atua como um sumo sacerdote do rock espacial. 

As suas letras, imbuídas de uma sexualidade magnética e de um poder quase divino, funcionam como um tónico revigorante, um convite ao excesso e à celebração da existência sob o signo da eletricidade. Wyndorf possui a rara capacidade de transformar o desespero num espetáculo cinematográfico, onde as ruas se assemelham a um purgatório repleto de fumo e neon.

É fascinante notar como o autor valoriza a ambiguidade. Como o próprio referiu em 2013, e que registamos nessa altura, a lacuna entre a palavra escrita e a interpretação do ouvinte é o espaço onde a música verdadeiramente ganha vida. 

Esta filosofia permitiu-nos, em 2015, redescobrir o álbum Mastermind através da reinvenção intitulada Cobras and Fire. Nessa remistura brutal e explosiva, como a de Dig That Hole, sentimos o encontro improvável entre o niilismo de Bukowski e a estética grandiosa do rock de arena, provando que a arte de Wyndorf é um organismo vivo, em constante mutação.

Olhando para o presente, nos últimos anos a chama dos Monster Magnet recusa-se a extinguir com  a banda a celebrar a 35th-anniversary tour, que manteve viva a sua chama e reafirmando Dave Wyndorf como um dos últimos grandes visionários do género. 

Embora o ritmo das edições de estúdio tenha abrandado em favor da maturação da sua obra, a energia que emana das suas atuações ao vivo continua a ser o barómetro pelo qual medimos a autenticidade do rock psicadélico contemporâneo.

Eles têm sido, de facto, companheiros assíduos nesta jornada cultural que é o Estereopositivo.

Seja através do poderoso Tractor ou das baladas regadas a comprimidos e álcool, os Monster Magnet ensinam-nos que a cultura não é apenas contemplação, mas sim um ato de possessão. Enquanto o sol continuar a bater na janela e houver um disco de Wyndorf no prato, haverá sempre um motivo para abandonar a cama e abraçar o cosmos.


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