A música que trago para o Estereopositivo tem um trajeto de descoberta tão incrível como a história da banda que a criou. Falo da "Entretanto", parte de uma reel gravada no já distante ano de 1971.
A fita que corporizava esta música viajou de França até ao Minho, acabando por ir parar a uma banca numa conhecida feira de velharias de Ponte de Lima. Foi exatamente aí, misturada entre alfaias ferrugentas e cassetes, que foi resgatada a voz do malogrado cantor Armando Serrano e a batida trágica do Conjunto Cósmico.
Tanto quanto conseguimos apurar, a caixa onde estava guardada esta fita acabou despachada para um marché aux puces onde um emigrante português, com raízes no Minho, por piada comprou um lote de tralhas e trouxe tudo na carrinha de caixa aberta num mês de agosto dos anos noventa do século passado.
A história do Conjunto Cósmico começa no verão de 1969, numa altura em que o mundo olhava para o céu a ver o homem pisar a Lua, e Portugal vivia as dores da Guerra do Ultramar.
Armando Serrano, um rapaz de origens muito humildes de uma pequena aldeia em Penacova, tinha acabado de regressar de uma dura comissão de serviço militar em Angola de onde trouxe: uma doença venérea mal curada, um sotaque arrastado fruto dos ritmos africanos com que tentava esquecer os dias de combate, e as inúmeras aventuras e uma guitarra elétrica comprada em Luanda.
Havia apenas um pequeno detalhe: Armando não sabia tocar um único acorde, e o instrumento servia para lhe dar pinta porque o seu verdadeiro dom era a voz. Tinha um timbre especial, muito carisma, e foi isso que lhe garantiu o lugar como vocalista quando os caminhos se cruzaram com o Carlos (baixo) e Fernando (bateria) — dois irmãos de origem burguesa, estudantes universitários em Coimbra, filhos de um conhecido escritor de Pulp Fiction nos anos trinta e quarenta do século passado - que procuravam um frontman para a sua banda. Nas teclas, entrou o Artur, o único com verdadeira formação musical.
A semelhança física nas fotografias enganava bem: pareciam uma banda de sangue, mas era apenas o resultado dos bigodes fartos e dos cabelos compridos que a moda da época exigia, e o Armando, antes um Comando em Angola, agora tinha de aprender guitarra o mais rapidamente possível.
Na verdade, o Conjunto Cósmico unia mundos completamente opostos.
No início dos anos 70, depois de um ano de ensaios intensos, a banda animava as festas da região com a sua mistura de rock sonhador e balanço do ultramar, e acreditavam que o limite era mesmo o cosmos.
Em 1971, conseguiram arranjar meia dúzia de trocos para subir ao Porto e gravar uma fita de apresentação nos Estúdios Rangel, no Bonfim, sendo esta, quanto temos conhecimento, o única registo sonoro do Conjunto Cósmico, ficando aqui o apelo para, quem tiver conhecimento de outros registos, os possa partilhar connosco.
A ilusão atingiu o pico quando, em finais de 1972, se cruzaram com "O Brandão", um suposto empresário musical radicado em Londres, que falava com um sotaque posh (fortemente forçado) e prometia levá-los para a Swinging London para gravarem nos mesmos estúdios das grandes estrelas de rock britânicas.
Os irmãos Carlos e Fernando convenceram o grupo a investir tudo o que tinham guardado dos diversos bailes, eventos e concertos que deram durantes aqueles dois anos, em fatos de cetim e equipamento de ponta, mas "O Brandão" desapareceu no nevoeiro com os adiantamentos, deixando o Conjunto Cósmico sem nada, atirando a banda para um poço de desilusão e ditando o seu fim imediato.
O choque com a dura realidade bateu forte e este episodio criou uma clivagem interna grande, tanto mais que "O Brandão" tinha sido recomendado pelos irmãos Carlos e Fernando e ficou a dúvida, na cabeça do Armando e do Artur, se parte daqueles adiantamentos não terão ido para os bolsos dos dois irmãos, cujos vícios por álcool, droga e festas já começava a ser notório.
Em 1973, cada um seguiu a sua própria tragédia.
O Carlos e o Fernando não suportaram o fracasso e a humilhação de terem perdido o dinheiro. O Carlos (baixista) deixou-se afundar no alcoolismo, caindo em desgraça e tocando por uns trocos nas tabernas mais obscuras de Coimbra. O Fernando (baterista) tentou a sorte noutras bandas em Lisboa, mas acabou apanhado pela pesada vaga de heroína que assolou a cidade nos anos 80, tornando-se um fantasma na Baixa.
O Armando, de origem humilde e habituado a lutar, teimou na música a solo, deambulando por festas tristes com a sua guitarra, a té àquele absurdo e fatal acidente com a antena de televisão em 1982.
O Artur foi o único que conseguiu escapar à maldição pois deu o salto para o sul de França, levando na bagagem uma concertina e o bem mais precioso da banda: uma reel gravada nos Estúdios Rangel com a única gravação em condições do Conjunto Cósmico.
Lá longe, em França, o Artur passou os seus dias a colocar essa reel a tocar num velho gravador para um sobrinho muito atento, ensinando-lhe os primeiros acordes e plantando a semente daquele que viria a ser um futuro músico nacional.
Mas esta e outras histórias, ficarão para outras alturas.
Mas esta e outras histórias, ficarão para outras alturas.
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