Dave Grohl : "The Storyteller" – Porque é que este é o verdadeiro 'Mr. Nice Guy' do Rock


Confesso que nunca fui propriamente um fã incondicional de Nirvana ou de Foo Fighters. Atenção, gosto deles e considero indiscutível que os Nirvana foram uma das grandes bandas que marcaram a ferro e fogo a minha geração. Mas se a música de Grohl sempre me foi simpática, é a sua postura perante a vida e a arte que tem o meu respeito absoluto.

Acabei de ler o seu livro autobiográfico, The Storyteller: Tales of Life and Music, e a conclusão a que chego é simples: Dave Grohl é, sem margem para dúvidas, o "Mr. Nice Guy" do Rock n' Roll.

O que mais me fascina nele não é apenas o estatuto de estrela rock, mas sim o seu trabalho quase de "historiador", um fã genuíno com um respeito imenso pelo passado e pelas lendas que vieram antes dele. Isso reflete-se em projetos espetaculares como o documentário sobre o estúdio Sound City, ou o brutal projeto Probot. Aliás, a música "Shake Your Blood" com o saudoso Lemmy Kilmister é um ponto alto; para Grohl transformou se numa tatuagem, para mim, é um verdadeiro lema de vida.

(Nota: Este respeito profundo pelas lendas vê-se também noutras atitudes ao longo da sua carreira, como a criação da série documental Sonic Highways, onde mapeou a história musical de várias cidades americanas, ou a forma como formou os Them Crooked Vultures apenas pelo prazer de poder tocar ao lado do seu ídolo, John Paul Jones dos Led Zeppelin ou a colaboração brutal com Josh Homme nos Queens of the Stone Age).

Ao longo da leitura de The Storyteller, fui tirando algumas notas soltas que mostram o quão rica, hilariante e humana é a sua jornada. Ficam aqui os pontos que mais me marcaram:

A relação com as filhas: É, sem dúvida, o grande coração deste livro. A forma como ele prioriza a paternidade no meio do caos das digressões é comovente e deita por terra o estereótipo do rockstar ausente.

As memórias de infância: A história hilariante (e dolorosa) da "cabeça rachada" mostra como a sua energia inesgotável já lá estava desde miúdo e leva me as minhas memórias de criança quando brincava com os meus amigos numa velha fabrica de papel junto do liceu ou jogava a bola em campos de brita.

O lado surreal da fama e da vida: Desde a bizarra "história da velha na cama" até à visita à vidente que lhe previu o futuro e lhe disse que, um dia, ele ia mesmo conseguir chegar ao topo.

Uma esponja musical: É fascinante ler sobre a enorme variedade das suas influências musicais. Ele não ouvia apenas punk ou metal; o seu ouvido sempre foi sedento de tudo o que fosse genuíno.

The Storyteller não é apenas um livro para fãs das suas bandas. É um retrato sincero de um homem que sobreviveu à tragédia, que ama a música de forma pura e que nunca perdeu a humildade nem o fascínio de um miúdo a ouvir o seu disco favorito pela primeira vez. 
Recomendo vivamente.

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